Até quando teremos que repetir: Niemeyer não é o criador de Brasília

É vã a polêmica em torno do uso do espaço destinado ao arquiteto dos monumentos de Brasília. E quem disse que a cidade não quer Oscar?

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 30/08/2019 22:22

Do mesmo modo que a Terra é redonda, o criador de Brasília é Lucio Costa. Em entrevista ao repórter Caio Barbieri, do Metrópoles, a neta de Oscar Niemeyer, Ana Lúcia Niemeyer, disse que o avô é “o criador de Brasília”.

(A frase foi dita no seguinte contexto: “O maior objetivo da fundação [Fundação Oscar Niemeyer] é com quem tem interesse de conhecer a história da cidade. Não é uma vaidade para homenagear o criador de Brasília”.)

Às vezes, é necessário chover no molhado, embora ainda seja agosto e as chuvas estejam a duas semanas do quadradinho. Quem inventou o Plano Piloto foi Lucio Costa, autor do projeto de número 22 que concorreu com outros 25.

Oscar teria sido o criador de Brasília, se quisesse, mas recusou o convite que lhe fez Juscelino num dia de setembro de 1956. Sugeriu um concurso para arquitetos brasileiros com júri internacional. Ele, Oscar, se encarregaria dos palácios, dos monumentos, da paisagem arquitetônica da cidade.

“Se Brasília não quer Niemeyer, não sou eu quem vai insistir”, disse a neta do arquiteto ao comentar a decisão do Governo do Distrito Federal de reabrir o Espaço Oscar Niemeyer com uma exposição de Siron Franco. A polêmica, por si só, é vã. Mas vamos por partes.

Durante mais de 40 anos, Niemeyer teve o monopólio das obras institucionais de Brasília. Desde o Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel, obras que começaram a ser construídas antes mesmo de se saber quem venceria o concurso do Plano Piloto, até os anacrônicos Museu da República, Biblioteca Nacional e até a Torre Digital – que, para muitos arquitetos, incluindo Carlos Magalhães, nem arquitetura é.

Se as primeiras obras do genial Oscar Niemeyer (sim, ele foi genial, e não sou eu quem diz, é a fortuna crítica brasileira e estrangeira), se essas primeiras obras surgiram na paisagem monótona do Cerrado como aves de concreto esplendor, as que vieram depois da década de 1980 foram perdendo a capacidade de espantar o mundo.

Entre os anos 1940 e 1950, a arquitetura moderna brasileira esteve para a arquitetura do planeta como a bossa nova para a música e Pelé para o futebol.

Quem sabia ver se deixou tomar pela estranha, concreta, barroca, moderna e diáfana beleza muito bem representada pelo Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, a Igrejinha, a segunda ponte e o QG do Exército (como pode um quartel-general ser diáfano? Mas é. Os volumes diluem-se no horizonte, numa bem-pensada proporção entre volume e vazio, céu e Cerrado, sobriedade e monumentalidade. A escultura em forma de punho de espada tem a soberania fluida que cabe muito bem a um país tropical).

Mesmo passados mais de 20 anos da construção de Brasília, finda a ditadura militar, Oscar Niemeyer continuou tendo domínio sobre as obras de caráter institucional. Os tribunais, a sede da Procuradoria-Geral da República, o Panteão da Pátria, o Espaço Lucio Costa e mais tarde o sofrível Museu da República, de que a cidade tanto gosta. A querência, nesse caso, já não é mais da ordem das qualidades arquitetônicas. É movimento de apropriação. É Niemeyer, é Brasília, nos pertence.

Portanto, Brasília reverencia o arquiteto, mesmo onde ele não é mais o genial arquiteto.

O uso que se dará ao Espaço Oscar Niemeyer é outra discussão. Ana Lúcia Niemeyer informa que o acervo do avô tem mais de 10 mil documentos arquitetônicos, entre plantas, croquis, fotos, mobiliário, escultura, maquetes, prêmios. É de se suspeitar, de relance, que essa enormidade de itens – por certo preciosos para a memória da arquitetura moderna brasileira – não cabe no compacto volume construído atrás da Praça dos Três Poderes.

O Espaço Lucio Costa, igualmente compacto, abriga apenas os croquis e documentos do projeto do Plano Piloto de Brasília e a maquete do projeto vencedor.

E uma exposição temporária de Siron Franco não vai macular o sagrado espaço do supremo arquiteto.

A discussão, portanto, me parece enviesada.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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