Segredos, verdades e inverdades da 308 Sul, a quadra perfeita

Lucio Costa deixou um poema escrito em blocos, jardins e pilotis. E o mais apurado desses versos urbanos é a 308 Sul, a quadra-modelo

Daniel Ferreira/MetrópolesDaniel Ferreira/Metrópoles

atualizado 27/01/2019 10:15

Se o urbanismo moderno fracassou ao tentar apagar as amarguras da vida nas grandes cidades, Lucio Costa deixou um poema escrito em blocos, jardins e pilotis. E o mais apurado desses versos urbanos é a 308 Sul, que Brasília aprendeu a chamar de quadra-modelo.

Lucio Costa inventou um novo modo de morar e deu-lhe um nome: superquadra. O Houaiss registra que a palavra surgiu em 1960, mas, na verdade, ela é de 1956, quando o arquiteto fez o projeto do plano-piloto de Brasília (era um plano-piloto, substantivo comum; virou Plano Piloto, topônimo do bairro histórico da cidade).

No Aurélio, superquadra é uma palavra nascida no Distrito Federal, Brasil: “Área residencial aberta ao público, em contraposição a condomínio fechado, com uma única entrada para veículos, emoldurada por larga faixa verde densamente arborizada, com edificações de gabarito uniforme de seis ou três pavimentos sobre pilotis livres, e equipamentos de uso comum, como playgrounds e escolas”.

A superquadra é o experimento mais bem-apurado de habitações coletivas nas sociedades industrializadas. Doutor Lucio conseguiu trazer o silêncio, a natureza e o convívio comunitário para a morada urbana – utopia que não se realizou.

Pela vontade de Lucio Costa, todas as superquadras teriam de ser como a 308 e como a unidade de vizinhança que ela compõe: quatro quadras, dispostas num quadrado, com um conjunto de equipamentos urbanos para servir aos moradores.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Jardim de infância, escola classe, escola parque, biblioteca, igreja, cinema, comércio, clube. E tudo cercado de árvores e entremeado de jardins, praças e parquinhos. E sem muro, sem impedimentos, sem segregação. Seria bom, se assim fosse.

Faz muitos anos, minha mãe (negra) saiu de casa, nas 400 Norte, em direção ao comércio. Passava pelos pilotis de um bloco residencial quando foi interpelada por um porteiro ríspido: “O que a senhora quer aqui?”. Nem foi preciso construir muros, eles existem em sua forma mais perversa.

É preciso, portanto, se distanciar desse traço amargo para se deixar levar pelo encanto das superquadras, em especial de seu exemplo mais perfeito.

Mas, ao contrário do que muita gente pensa, os blocos da 308 não são de Niemeyer, nem os azulejos são de Athos Bulcão. Os prédios são dos arquitetos Sérgio Rocha e Marcelo Campelo, que fez também os azulejos.

Mas há Athos dentro da 308, sim, e um Athos surpreendente. São dele os ladrilhos hidráulicos que revestem a fachada do Jardim de Infância (projeto de Stellio Seabra). Os ladrilhos hidráulicos são peças artesanais, feitas uma a uma, à base de cimento. São de uma beleza quase triste. Oscar também está lá, na Escola Classe.

A 308 tem um segredo escondido atrás da banca de revista. É uma caixa-d’água subterrânea destinada a regar os jardins. Foi desativada há muitos anos e é usada como depósito pela Novacap. O esconderijo tem mais ou menos o tamanho de uma quitinete e bem podia servir para se fazer um monte de coisa que só é bom fazer escondido… para desespero da 308, uma quadra que vigia cada fio de grama, cada bloquete de calçada. Persegue perigosamente a perfeição, como quem recusa o imperfeito da vida.

Burle Marx é a estrela mais celebrada da 308, mas não exatamente pelo seu paisagismo, o que é uma pena, porque nosso mais importante paisagista se deita em toda a quadra, nas duas praças, no serpentário, nos arredores dos blocos residenciais. O serpentário, diga-se, não tem serpente. É uma praça de bancos e muretas sinuosas, que parecem brincar de pique-pega com as palmeiras esguias e indiferentes. O que mais atrai o visitante à 308 são o laguinho e as carpas. O brasiliense procura água e vida, avidamente.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Um dia desses, a sempre provocadora Sylvia Ficher, professora de arquitetura da UnB, me perguntou por que nunca se vê gente nos festejados pilotis das superquadras. Talvez elas tenham sido feitas para a cidade presa na liberdade, como disse Clarice Lispector.

Termino com Clarice (em Nos primeiros começos de Brasília):
“Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. — Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza.”

Mais adiante, ela escreve: “Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho”.

Eu também.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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