Por que Lula não queria que EUA classificasse PCC e CV como terroristas
EUA classificou PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Medida pode ter impacto no Brasil
atualizado
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A decisão desta quinta-feira (28/5) dos Estados Unidos (EUA) de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras era uma preocupação antiga do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em declaração no final de abril deste ano, Lula afirmou que o combate às facções é um problema do governo brasileiro e não dos EUA. Para o Planalto, a classificação pode abrir brechas para intervenções externas, como ocorreu na Venezuela. Desde julho de 2025, os EUA têm bombardeado embarcações na região sob pretexto de combate ao narcotráfico.
“Nós temos clareza do que significa o PCC e o Comando Vermelho. Isso está tipificado na legislação brasileira, e nós vamos enfrentar essa gente”, declarou Lula.
“Nós aprovamos agora a Lei Antifacção, que vai permitir ter uma atuação muito mais poderosa para tentar destruir essas organizações. Essa é uma guerra que é nossa, essa guerra não é dos Estados Unidos”, disse Lula no último dia 14 de abril.
A declaração reforçou a posição do Itamaraty de oposição à intenção dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas PCC e CV como organizações terroristas, o que é interpretado pelo governo brasileiro como pretexto para que o a gestão do presidente Donald Trump realize intervenções militares no Brasil.
Lula ofereceu soluções para impedir classificação
Durante encontro com Trump na Casa Branca, no início de maio, o petista apresentou propostas de cooperação bilateral no combate ao crime organizado e convidou os Estados Unidos a participarem de iniciativas brasileiras voltadas à segurança regional.
“Criamos uma base na cidade de Manaus com a participação de representantes das polícias de países da América do Sul para combater o crime organizado, o tráfico de armas e drogas na fronteira brasileira. Se os Estados Unidos quiserem participar conosco, estarão convidados”, afirmou Lula após a reunião.
Entre os projetos apresentados, está o Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI), conhecido como “Polícia da Amazônia”, sediado em Manaus. O centro reúne forças policiais dos países amazônicos e da Interpol para atuar de forma conjunta contra o tráfico de drogas, armas e crimes transnacionais na região.
Lula também citou o Consenso de Brasília, iniciativa criada em 2023 para ampliar a cooperação entre países sul-americanos no combate ao crime organizado, especialmente dentro do sistema penitenciário. Uma das metas do grupo é desenvolver mecanismos para bloquear sinais de celular em presídios e ampliar a troca de informações entre autoridades de segurança da América do Sul.
Outra proposta apresentada pelo governo brasileiro foi o plano “Brasil contra o crime organizado”, estruturado em quatro eixos principais: combate financeiro às facções, endurecimento da segurança em presídios, aumento da taxa de resolução de homicídios e repressão ao tráfico de armas.
Apesar da tensão envolvendo a classificação das facções, Brasil e Estados Unidos já mantêm acordos de cooperação na área de segurança pública.
Segundo a Polícia Federal, centenas de armas vindas dos EUA são apreendidas mensalmente tentando entrar ilegalmente no Brasil. Os dois países também compartilham informações sobre rotas do tráfico internacional de drogas e armas, além de dados de inteligência sobre organizações criminosas que atuam nas Américas.
O que os EUA alegaram para classificar CV e PCC como terroristas
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou, nesta quinta-feira (28/5), que classificará as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
Segundo o Departamento de Estado, as duas facções serão oficialmente incluídas na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) na próxima sexta-feira, 5 de junho.
Em comunicado, o governo do presidente Donald Trump afirmou que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e acusou os grupos de comandarem ataques contra policiais, servidores públicos e civis.
Segundo o Departamento de Estado, as redes das facções “se estendem muito além das fronteiras do Brasil” e afetam diretamente a segurança dos Estados Unidos.
“O governo Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo as drogas ilícitas longe de nossas ruas e interrompendo o fluxo de receita que financia narcoterroristas violentos”, afirmou a pasta.
O chefe da diplomacia norte-americana, Marco Rubio, classificou as facções como as organizações criminosas “mais violentas” do Brasil e que a atuação dos grupos se estende por toda a região.
O governo norte-americano incluiu as facções brasileiras em duas listas: a de “organizações terroristas estrangeiras” e a de “terroristas globais especialmente designados”.
Embora as duas designações frequentemente sejam aplicadas aos mesmos grupos, os enquadramentos como Organização Terrorista Estrangeira (FTO, na sigla em inglês) e Terrorista Global Especialmente Designado (SDGT) possuem diferenças jurídicas e operacionais dentro da legislação norte-americana.