Suposto lobista passa à condição de investigado na CPI da Covid-19

De laços estreitos com a família Bolsonaro, Marconny Ribeiro Faria teria atuado em nome da empresa em venda de testes de Covid-19 ao governo

atualizado 15/09/2021 16:56

Marconny Faria_CPI da Covid-19Roque de Sá/Agência Senado

A CPI da Covid-19 realizou, durante esta quarta-feira (15/9), oitiva destinada a colher o depoimento de Marconny Ribeiro Faria, apontado como lobista da Precisa Medicamentos. A empresa foi intermediária entre o laboratório indiano Bharat Biotech e o Ministério da Saúde nas negociações da vacina Covaxin. Ao fim da sessão, Marconny passou a ser investigado pela comissão.

“Quero acatar o pedido dos colegas senadores. Um passo a elevar a lista dos investigados dessa comissão parlamentar de inquérito e incluo o nome do senhor Marconny Faria como um dos investigados”, anunciou Renan Calheiros, relator da CPI.

No início do mês, Calheiros tornou pública a inclusão, no rol de investigados, do ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni, o deputado Osmar Terra (MDB-RS) e o empresário bolsonarista Luciano Hang. Com a inclusão do nome de Marconny, a lista salta para 30 investigados.

O vice-presidente da CPI da Covid-19, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), encaminhou ao Ministério Público Federal um despacho em que pede que o órgão cheque se Marconny Ribeiro Faria cometeu crime de falso testemunho ao colegiado.

O senador explica que o mesmo movimento foi adotado durante o depoimento do ex-secretario Fábio Wajngarten. A comissão ainda não recebeu retorno sobre o despacho. “A CPI ainda pode e deve pedir a prisão do Marconny. A vontade que eu tinha hoje era outra”, disse o senador.

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Compra de testes

Durante a oitiva, aos senadores, Marconny negou qualquer vantagem na compra de testes de Covid-19. “No início da pandemia, fui sondado para assessorar política e tecnicamente a Precisa em concorrência pública que já estava em andamento no Ministério da Saúde, que tinha por objetivo teste rápido para Covid”, explicou.

“Não participei da análise do edital, habilitação ou apresentação de proposta da Precisa. Houve uma mudança na diretriz do MS, que optou por testagens por outros meios. Não houve tratativa ou pagamento de valores ou vantagens a mim ou a outra pessoa. Não fui contatado para nenhum outro serviço para a Precisa ou para o Ministério da Saúde em relação à vacina”, continuou.

O depoimento de Faria à CPI estava marcado para o último dia 2 de setembro, mas ele apresentou atestado médico e não compareceu à audiência. Após contato do presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), com a direção do Sírio-Libanês, o médico que atendeu o lobista disse que anularia o atestado.

Alvo de busca e apreensão da Operação Hospedeiro, do Ministério Público Federal (MPF) do Pará, o suposto lobista entrou na mira da CPI por causa de suas relações com outros investigados, como José Ricardo Santana, ex-secretário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e também apontado como lobista da Precisa.

Santana, inclusive, estava com Dias no jantar no restaurante do Brasília Shopping em que, supostamente, houve o pedido de propina de US$ 1 por dose de vacinas que viriam a ser vendidas pela Davati Medical Supply ao Ministério da Saúde.

Mensagens

Entre as mensagens, há menções a Danilo Trento, diretor da Precisa e sócio da empresa Primarcial Holding e Participações, e sobre a necessidade de “desidratar uma empresa concorrente” à de Trento. A Primarcial funciona no mesmo endereço da Primares Holding e Participações, que é outra empresa de Francisco Maximiano, sócio da Precisa.

A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou “evidências de tentativa de interferência” no processo de licitação para contratação de testes de Covid-19 com a ajuda de Roberto Ferreira Dias, para beneficiar a Precisa.

Conversas de Faria as quais a comissão teve acesso demonstram que ele teria conhecido Santana na casa de Karina Kufa, advogada do presidente Jair Bolsonaro Karina Kufa e que também se tornou alvo da CPI.

A Precisa é um dos principais alvos das investigações da CPI por suspeita de irregularidades nas negociações na compra da vacina Covaxin. Após as denúncias se tornarem públicas, o Ministério da Saúde decidiu encerrar o contrato de R$ 1,6 bilhão para a compra de 20 milhões de doses do imunizante indiano.

As relações de Faria, entretanto, não se limitam a envolvidos nas negociações irregulares do imunizante indiano.

Condução coercitiva

Faria também recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para não depor, mas teve o pedido negado pela ministra Cármen Lúcia. A magistrada concedeu, todavia, habeas corpus garantindo o direito ao silêncio em questões que o autoincriminem.

Ademais, caso não compareça à sessão sem justificar a ausência, ele poderá ser conduzido coercitivamente à CPI. A juíza federal Pollyanna Kelly Martins Alves, da 12ª Vara Criminal, deferiu o pedido da Advocacia do Senado Federal.

“Zero quatro”

O lobista também teria, segundo documentos obtidos pela comissão, relação estreita com a ex-esposa de Bolsonaro Ana Cristina Valle, e com o filho “04” do presidente, Jair Renan Bolsonaro, a quem teria ajudado na criação da empresa Bolsonaro Jr Eventos e Mídia.

O material também aponta que Faria participava de eventos com a ex-esposa e o filho do presidente, como churrascos e passeios de lancha.

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