
PL busca estratégias para Flávio após desgastes com carta de Bolsonaro
Restrição ao contato entre pai e filho leva aliados a serem obrigados a redesenhar a campanha às vésperas de oficialização da candidatura

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de proibir o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de visitar por 90 dias o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar, deve testar a capacidade política do pré-candidato do PL à Presidência da República.
Nos bastidores, integrantes da campanha avaliam que a medida interfere diretamente no cenário eleitoral em um momento em que o senador tenta superar desgastes recentes e recuperar espaço nas pesquisas de intenção de voto.
Além do impacto político, aliados afirmam que a restrição pode afetar a condução da campanha. Mesmo preso, Jair Bolsonaro continuava atuando como principal conselheiro político do filho, orientando decisões sobre alianças estaduais e estratégias eleitorais.
Sem contato direto, integrantes do entorno do senador avaliam que Flávio perde um importante canal de aconselhamento justamente na reta de definição dos palanques.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO PL trabalha para concluir as articulações estaduais e oficializar a candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto. A convenção nacional do partido está marcada para o próximo dia 25, em São Paulo. A defesa de Flávio deve recorrer ao STF para tentar derrubar a decisão de Moraes.
Na carta lida por Flávio no último sábado (11/7), Jair Bolsonaro pede que aliados “deixem de lado possíveis diferenças” e trabalhem em favor de “nosso pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro”. O ex-presidente também se refere ao senador como seu “porta-voz”.
Autonomia e caminhos
Outra ala do PL, entretanto, minimiza o impacto da decisão. Integrantes desse grupo afirmam que as definições sobre os palanques estaduais já estavam praticamente concluídas e que Flávio recebeu do pai autonomia para conduzir as negociações políticas como seu porta-voz.
Na avaliação desses aliados, a restrição deve alterar a rotina da campanha. A expectativa é que Flávio reduza o tempo de permanência em Brasília, concentre o núcleo da campanha em São Paulo e intensifique as viagens pelos estados.
Coordenador da pré-campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que a medida prejudica a condução da campanha e classificou a decisão como “mais uma arbitrariedade”.
“É evidente que atrapalha, né? E me parece que termina impedindo que o maior líder da direita se comunique com o seu pré-candidato, que por acaso é seu filho. Além disso, há um vínculo familiar”, disse Marinho.
A decisão de Moraes
- Nessa segunda-feira (13/7), o ministro Alexandre de Moraes suspendeu, por 90 dias, as visitas de Flávio ao pai ao entender que o senador desrespeitou uma decisão anterior do STF ao ler, durante uma transmissão nas redes sociais, uma carta atribuída ao ex-presidente.
- Uma decisão anterior proibia Jair Bolsonaro de utilizar redes sociais “diretamente ou por intermédio de terceiros”.
- Com a medida, pai e filho não poderão se encontrar até 13 de outubro, poucos dias após o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.
- Na mesma decisão, Moraes entendeu que a leitura da carta pode configurar propaganda eleitoral antecipada e determinou o envio das informações ao Ministério Público Eleitoral.
- “A divulgação de vídeo em rede social e utilização de expressões com carga semântica equivalente a pedido explícito de voto pode configurar propaganda eleitoral antecipada em período vedado pela legislação, devendo ser apurada pelo Ministério Público eleitoral”, afirmou.
Crises
A campanha de Flávio atravessa um período de desgaste, e aliados contavam com a participação indireta de Jair Bolsonaro para reduzir os efeitos da crise. Os problemas se acumularam nos últimos meses.
Primeiro, vieram a público áudios e mensagens em que Flávio pede recursos ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar um filme em homenagem ao pai. Em seguida, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou vídeos nos quais expôs o rompimento com o enteado.
Ela afirmou ter sido “destratada” durante discussões sobre o palanque do PL no Ceará e chegou a cogitar deixar o partido.
Mais recentemente, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, teve mais de R$ 199 milhões em bens bloqueados em uma investigação da Polícia Federal que apura supostas indicações irregulares de emendas parlamentares.
No entorno de Flávio, porém, não há consenso sobre como a decisão de Moraes vai impactar a recuperação desses episódios.
Uma ala avalia que a proibição das visitas tende a prejudicar a campanha ao interromper o contato frequente entre pai e filho. Para esses aliados, a restrição dificulta a troca de informações e reduz a influência direta de Jair Bolsonaro nas decisões estratégicas do senador.
Restrição
Esse grupo também aponta um efeito colateral: com a proibição, apenas os advogados do ex-presidente, Carlos Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro poderão visitá-lo. Michelle Bolsonaro, por morar com Jair, continuará tendo contato diário com o marido.
Na avaliação desses interlocutores, isso torna a comunicação entre o ex-presidente e Flávio mais difícil, sobretudo diante da relação desgastada entre o senador e a ex-primeira-dama, que passaria a exercer maior influência sobre Bolsonaro.

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Ver todasFlávio vê tentativa de interferência
Em uma transmissão ao vivo, Flávio Bolsonaro afirmou que a proibição representa uma tentativa de Alexandre de Moraes de interferir nas eleições deste ano.
“É obviamente algo completamente desproporcional, desarrazoado e claramente configura essa tentativa de Alexandre de Moraes de interferir nas eleições desse ano. O que o Alexandre Moraes faz agora é claramente deixar o meu pai incomunicável. Não por acaso ele toma a decisão, deixando o presidente Bolsonaro sem falar com o próprio filho. No caso Flávio Bolsonaro, eu por 90 dias, ou seja, eu só poderia voltar a falar com o presidente Bolsonaro após o primeiro turno das eleições desse ano”, disse o senador.
Flávio também afirmou que Moraes procura uma “desculpinha” para retirar Jair Bolsonaro da prisão domiciliar.
“O que eu percebo é que mais uma vez o Alexandre de Moraes, quer só uma desculpinha pra tirar o meu pai da domiciliar que ele se encontra. Gente, não vamos ser ingênuos”, afirmou.
Apesar das divergências internas sobre os efeitos práticos da medida, aliados do senador concordam que a decisão pode reforçar o discurso de perseguição judicial, ampliando a mobilização do eleitorado. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, compartilha dessa avaliação.
“Isso só vai fazer o Flávio subir ainda mais nas pesquisas de intenção de voto”, afirmou o dirigente.













