
Crise com Michelle abala campanha de Flávio, e aliados pregam cautela
Desabafo público da ex-primeira-dama expõe tensão com o senador e presidenciável. Campanha tenta evitar danos e mira eleitorado feminino

O “vídeo-desabafo” publicado por Michelle Bolsonaro com críticas ao enteado e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abriu uma nova crise na pré-campanha do parlamentar ao Palácio do Planalto.
Nos bastidores, integrantes da estrutura avaliam que a manifestação da ex-primeira-dama provocou mais um desgaste para um projeto político que já enfrentava dificuldades para ganhar tração e reverter a queda nas pesquisas de intenção de voto.
A avaliação de aliados é que o episódio ocorreu em um dos momentos mais delicados da pré-campanha e interrompeu um esforço em curso para reposicionar a imagem de Flávio perante o eleitorado. Segundo interlocutores do senador, o desabafo tornou público um incômodo antigo de Michelle com o enteado, até então restrito a conversas reservadas.
Nos vídeos divulgados nas redes sociais, Michelle afirmou ter sido “humilhada”, “desrespeitada” e “maltratada” pelo filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo ela, o episódio ocorreu após divergências sobre a estratégia política do PL no Ceará, especialmente em relação à aproximação do partido com Ciro Gomes (PSDB).
A ex-primeira-dama também afirmou que passou a ser alvo de ataques de integrantes do campo bolsonarista após a discordância. Aliados de Michelle afirmam que essa ofensiva foi o principal motivo para a divulgação dos vídeos.
A crise surge em um momento em que Flávio tenta se desvencilhar dos desgastes provocados pela divulgação, em maio, de áudios e mensagens nos quais aparece pedindo recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar Dark Horse, um filme em homenagem a Jair Bolsonaro.
Desde então, a campanha vinha concentrando esforços na construção de uma agenda positiva, com foco na apresentação de propostas e na tentativa de aproveitar o desgaste enfrentado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na avaliação de integrantes da equipe, porém, o vídeo de Michelle recolocou o senador no centro de uma controvérsia e desviou novamente a atenção dos temas que a campanha pretendia priorizar.
Aliados tentam esfriar a crise
Reservadamente, membros do entorno de Flávio demonstram preocupação com os efeitos do episódio sobre o eleitorado feminino, considerado estratégico para a candidatura. Presidente do PL Mulher, Michelle é vista como uma das principais lideranças do segmento feminino e do eleitorado evangélico.
Por isso, aliados defendem que o senador evite novos embates públicos e permita que a polêmica perca força. Dirigentes do PL avaliam que prolongar a discussão pode ampliar os danos políticos e oferecer munição para adversários explorarem o conflito durante a campanha.
Monitoramentos da equipe de Flávio indicam que a repercussão atingiu mais diretamente a imagem de Michelle do que a de Flávio. Ainda assim, integrantes da campanha avaliam que insistir no assunto pode transferir parte desse desgaste para o senador.
Parlamentares próximos ao pré-candidato também defendem gestos de reaproximação com a madrasta e com o eleitorado feminino. Na noite de quarta-feira (24/6), Flávio pediu desculpas em uma rede social, negou ter desrespeitado a ex-primeira-dama e afirmou manter respeito por ela.
Nesta quinta-feira (25/6), ele voltou a reforçar um convite para que Michelle participe de um encontro com lideranças femininas previsto para a próxima semana. “O convite segue de pé e o coração segue aberto”, escreveu.
Mudança de tom
Após a repercussão do vídeo, Michelle também procurou reduzir o tom da crise. Nesta quinta, a ex-primeira-dama afirmou que “não há briga, nem competição”. “Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno”, escreveu.
A relação entre Flávio, os irmãos e Michelle já vinha sendo acompanhada com atenção por aliados. Desde que o senador foi escolhido por Jair Bolsonaro como pré-candidato ao Palácio do Planalto, interlocutores defendiam a necessidade de estreitar os laços entre os dois para evitar divisões no campo bolsonarista.
Em fevereiro, durante uma reunião com parlamentares, Flávio chegou a negar qualquer conflito com a ex-primeira-dama e afirmou que não havia “intriga” entre eles. Na ocasião, integrantes da família Bolsonaro e aliados pressionaram Michelle a demonstrar apoio mais explícito à candidatura do senador.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, cobrou publicamente um posicionamento da madrasta.
Cronologia da crise na família Bolsonaro
- Novembro de 2025: Michelle Bolsonaro critica o PL do Ceará por se aproximar de Ciro Gomes.
- Dezembro de 2025: Flávio Bolsonaro reage e diz que a madrasta “atropelou o próprio presidente Bolsonaro”. O senador também classificou a atitude de Michelle como “autoritária e constrangedora”.
- Fevereiro de 2026: Eduardo Bolsonaro critica a falta de apoio de Michelle a Flávio, e publica um vídeo fazendo “banana frita”. Na ocasião, o pré-candidato ao Planalto tentou colocar panos quentes e distensionar o clima com a ex-primeira-dama.
- Março de 2026: Michelle e Carlos Bolsonaro entram em embate por palanque em Santa Catarina.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que vai procurar Flávio e Michelle para conversar. Integrantes da sigla têm monitorado o próximo encontro entre os dois. Há uma possibilidade de que o senador visite o pai, que está preso domiciliarmente, nesta sexta (26/6).
Candidata a vice
O episódio também reforçou uma tese já defendida por integrantes da pré-campanha: a escolha de uma mulher para compor a chapa como candidata a vice-presidente.
O próprio Flávio já sinalizou concordância com a estratégia. Segundo aliados, a expectativa é de que o nome seja anunciado nas próximas semanas. Embora a hipótese já estivesse em análise antes da crise com Michelle, integrantes da campanha afirmam que a escolha ganhou ainda mais relevância após a repercussão do caso.
Nos últimos meses, o PL testou diferentes nomes para a vaga. A avaliação interna, porém, foi de que possíveis opções, como a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a deputada Clarissa Tércio (PP-PE), não produziram impacto significativo nos índices de intenção de voto.
Mais recentemente, Eduardo Bolsonaro passou a defender a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) para o posto. O perfil mais ideológico da parlamentar, entretanto, enfrenta resistência entre lideranças do Centrão, que defendem a busca por um nome capaz de ampliar o diálogo com setores mais moderados do eleitorado.
Outro nome que começou a circular foi o da deputada federal Bia Kicis (PL-DF).

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