
Focos de Lula e Flávio, partidos do Centrão tendem a liberar filiados
Negociações esfriam, e partidos voltam atenções à disputa no Congresso. Aproximação entre União e PP com Flávio recuou após Master

A menos de quatro meses das eleições, os partidos do Centrão disputados pelos dois principais pré-candidatos à Presidência até o momento, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), dão sinais de que podem permanecer neutros na corrida ao Palácio do Planalto.
A tendência atual, na maioria das siglas, é liberar os filiados para apoiar os candidatos de sua preferência nos estados, sem formalizar alianças nacionais. As decisões somente serão formalizadas, porém, entre julho e agosto, durante as convenções partidárias.
O bloco, que reúne União Brasil, PP, Republicanos, MDB, Podemos e PSD, terá o maiores volumes de tempo de TV e de recursos públicos para financiamento de campanhas e, por isso, virou alvo prioritário das articulações.
Lula buscava atrair partidos do grupo para ampliar a capilaridade de sua campanha à reeleição e chegou a negociar com o MDB a possibilidade de a legenda indicar o candidato a vice-presidente. No MDB, porém, a avaliação predominante é pela neutralidade.
Em março, dezessete dos 27 dirigentes estaduais assinaram um manifesto defendendo que o partido não integre coligações nem declare apoio nacional a qualquer candidatura presidencial. A expectativa é que essa posição seja confirmada durante uma convenção partidária.
Flávio Bolsonaro também vinha intensificando conversas com lideranças do Centrão e apostava especialmente em uma aproximação com PP e União Brasil, que formam a federação União Progressista — a maior fatia do fundo eleitoral.
Pesava a favor da aliança a proximidade do filho mais velho de Bolsonaro com os presidentes das duas siglas, Antonio Rueda (União) e Ciro Nogueira (PP).
Até recentemente, o União e o PP davam sinais de que caminhariam para formalizar uma aliança com Flávio. O cenário, contudo, começou a mudar após o avanço de investigações sobre o envolvimento de políticos com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Caso Master
Segundo dirigentes ouvidos pelo Metrópoles, a situação começou a deteriorar após Ciro Nogueira se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal relacionada ao banco. Nos bastidores, o episódio provocou um desgaste na relação entre o senador e Flávio Bolsonaro.
Em conversas recentes com parlamentares do PP, Ciro afirmou estar insatisfeito com a postura adotada pelo aliado, a quem costumava se referir como “amigo”. Integrantes da legenda relatam que o senador esperava uma manifestação pública de apoio por parte de Flávio.
A situação se agravou uma semana depois, quando vieram à tona diálogos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Nas mensagens, o filho mais velho de Jair Bolsonaro aparece pedindo recursos financeiros ao banqueiro. O episódio ampliou o desconforto dentro do PP e reforçou resistências à aproximação com o pré-candidato do PL.
O silêncio de Flávio voltou a incomodar o entorno de Ciro nesta terça-feira (16/6), após a divulgação de um relatório da Polícia Federal que detalha a suposta relação entre o piauiense e Vorcaro. Segundo a investigação, o empresário teria custeado viagens internacionais do parlamentar e pago uma “mesada” em troca de atuação política favorável ao Banco Master no Congresso.
De acordo com relatos feitos ao Metrópoles, Ciro indicou recentemente que deverá atuar contra uma aliança formal entre o partido e o pré-candidato do PL. Aliados afirmam que o presidente do PP avalia que Flávio Bolsonaro não o defendeu publicamente e teria “largado sua mão” após a operação da PF.
Em nota divulgada no dia da ação, Flávio não citou nominalmente Ciro Nogueira, mas classificou como “graves as informações divulgadas pela imprensa” e afirmou que o caso deveria ser apurado “com rigor”. O filho de Jair Bolsonaro também disse confiar no trabalho do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações do Master na Corte.
Mudança de discurso
Também contribuiu para o desconforto a mudança de discurso de Flávio Bolsonaro sobre uma eventual chapa presidencial. Em junho de 2025, o senador havia afirmado que Ciro Nogueira possuía “todas as credenciais” para ser candidato a vice-presidente. “Perfil do Ciro é um bom perfil”, declarou na ocasião.
Um dia após a operação da PF, em 8 de maio deste ano, Flávio disse que aquela manifestação havia sido apenas uma “cortesia para ele”.
O mal-estar, dizem dirigentes do PP, pode consolidar um veto ao apoio formal à candidatura de Flávio e dificultar uma adesão da federação União Progressista à campanha do PL.
União e PP
No União Brasil, dirigentes ouvidos pelo Metrópoles relataram um cenário semelhante. Um dos caciques da legenda afirmou que, atualmente, é “difícil” imaginar tanto o União Brasil quanto o PP ao lado de Flávio Bolsonaro.
Segundo integrantes da cúpula da federação, a tendência hoje é que os dois partidos liberem seus filiados para apoiar o candidato de preferência.
Juntas, as legendas terão mais de R$ 772 milhões do fundo eleitoral para financiar campanhas neste ano. Sem uma candidatura presidencial para apoiar, a prioridade deverá ser o investimento em disputas para o Congresso.
Distribuição do fundo eleitoral ao Centrão
- União Brasil: R$ 526,2 milhões
- PSD: R$ 421 milhões
- PP: R$ 417 milhões
- MDB: R$ 400 milhões
- Republicanos: R$ 348,6 milhões
- Podemos: R$ 245,9 milhões
*Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Um dirigente do União Brasil afirmou haver um “sentimento geral” de que, atualmente, não existem condições políticas para apoiar Flávio Bolsonaro. Ele citou, como exemplo, a movimentação do entorno do senador para testar nomes considerados mais radicais para a vice-presidência, como a deputada Júlia Zanatta (PL-SC). “Parece que não estão levando a sério a eleição”, afirmou.
Lideranças da federação afirmam, contudo, que a definição oficial só ocorrerá durante as convenções partidárias. “Até as convenções, as condições podem mudar, mas, hoje, não há espaço [para uma aliança]”, disse um dirigente.
Em 2022, o PP integrou formalmente a coligação que apoiou a tentativa de reeleição de Jair Bolsonaro. Já o União Brasil, diante de divisões internas, lançou candidatura própria ao Planalto com a então senadora Soraya Thronicke.
Republicanos também deve liberar filiados
Outra legenda que integrou a coligação de Jair Bolsonaro em 2022 e que tende a ficar fora da disputa presidencial deste ano é o Republicanos.
Lideranças do partido foram procuradas por Flávio Bolsonaro e pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mas as conversas não avançaram.
O presidente nacional da sigla, Marcos Pereira, tem afirmado a aliados que o Republicanos não deverá embarcar em nenhuma candidatura presidencial em 2026. A tendência, segundo o que ele tem dito a correligionários, é liberar os filiados para se posicionarem individualmente.
Podemos mantém negociações
O Podemos, que em 2022 integrou a coligação de Simone Tebet ao lado do MDB, ainda negocia uma possível aliança com Flávio Bolsonaro. A presidente da legenda, Renata Abreu, e Valdemar Costa Neto mantêm conversas frequentes, segundo interlocutores.
A parlamentares do partido, Renata afirmou que as negociações continuam e que as bancadas da Câmara e do Senado deverão ser consultadas antes de qualquer decisão sobre a formalização da aliança.
PSD aposta em candidatura própria, mas flexibiliza campanha
No PSD, a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, somada ao desejo de parte dos diretórios estaduais de apoiar o petista, levou o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, a defender uma candidatura própria ao Planalto.
Em março, o partido lançou o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência. A expectativa é que a candidatura seja oficializada durante convenção em julho.
Mesmo com a candidatura própria, a legenda não deverá exigir engajamento dos filiados na campanha de Caiado. Dirigentes afirmam que a tendência é permitir que os correligionários possam declarar apoio a Lula ou a Flávio Bolsonaro, conforme as realidades políticas de cada estado.

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