Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

Entrou pela perna do pinto: o fim precoce da chapa Flávio-Tereza

Sem o apoio da cúpula do PP e com forte rejeição no eleitorado feminino, a união sonhada pelo clã Bolsonaro desmorona antes mesmo de nascer

31/07/2026 04:30
Arte/Metrópoles
Tereza Cristina e Flávio Bolsonaro

Na política brasileira, ser “cristianizado” significa ser abandonado pelo próprio partido ou por seus principais líderes durante uma campanha eleitoral. Isso ocorre quando a legenda mantém a candidatura formalmente, mas, nos bastidores, desvia o apoio, a estrutura e os votos para um adversário com mais chances de vitória.

O termo é um neologismo que nasceu nas eleições presidenciais de 1950. O candidato do Partido Social Democrático (PSD) era o mineiro Cristiano Machado. Ao longo da disputa, a maior parte dos caciques e das bases do PSD percebeu a força avassaladora de Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O partido traiu Machado, votando em Getúlio, que acabou se elegendo.

Desde então, o folclore político brasileiro incorporou a expressão para definir episódios clássicos de infidelidade partidária ou de rejeição de alianças que seriam naturais. Em 1989, como candidato do PMDB à Presidência da República, Ulysses Guimarães foi abandonado por seu partido, que preferiu apoiar Fernando Collor.

Deu-se o mesmo, naquela eleição, com Aureliano Chaves, mineiro como Cristiano Machado e ex-vice-presidente de João Figueiredo — o último general a presidir o Brasil na ditadura militar de 1964. Chaves foi largado de mão pelo PFL, que ajudou Collor a se eleger no segundo turno, derrotando Lula, candidato a presidente pela primeira vez.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

O Partido Liberal (PL), que abriga a família Bolsonaro, continua firme e forte ao lado de Flávio, o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe militar. No entanto, partidos de direita que naturalmente poderiam apoiar Flávio fogem dele como “o diabo da cruz”, por descrença em sua vitória.

O candidato escolhido por seu pai está à caça de uma mulher que aceite ser vice em sua chapa. As mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro, e uma parcela expressiva delas afirma que não votaria em Flávio de jeito nenhum. Até que apareceu uma alternativa: a senadora Tereza Cristina, do Progressistas (PP) de Mato Grosso do Sul, que topou examinar a ideia.

No governo de Jair Bolsonaro, Tereza foi ministra da Agricultura e deixou o cargo aclamada pelo agronegócio e pelo mercado financeiro. Ela tem mais quatro anos de mandato e poderia dar-se ao luxo de concorrer à vice-presidência, retornando ao Senado em caso de derrota. Mas seu partido não quer, e ela já foi devidamente informada a respeito.

A maioria dos dirigentes do PP, consultados pelo senador Ciro Nogueira, presidente da sigla, é contra coligar-se com o PL de Flávio. Não tanto por se tratar do PL, um dos partidos do Centrão do qual o PP também faz parte. O problema central é Flávio e suas escassas chances de se eleger. De resto, o PP do Nordeste caminha com Lula, inclusive Nogueira, embora ele não confesse.

A “cristianização” de Flávio está aí para quem quiser ver. A chapa Flávio-Tereza “entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato; o Rei meu senhor que me conte mais quatro”.

Acesse todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles