O luto de um pai é o luto do país: “Meu filho morreu como herói”

O pesar de Gercialdo Melquiades de Oliveira pela perda de Samuel, morto na chacina em Suzano (SP), traduz o choque do Brasil com a tragédia

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 15/03/2019 16:32

Suzano (SP) e Brasília (DF) – O último contato do impressor gráfico Gercialdo Melquiades de Oliveira, de 38 anos, com o filho Samuel Melquiades Silva de Oliveira, de 16, foi quando o jovem deixou a casa da família, na manhã de quarta-feira (13/3), rumo a mais um dia de aula na Escola Estadual Raul Brasil.

No intervalo entre as aulas, naquela manhã, dois ex-alunos invadiram a instituição armados com um arsenal que incluía revólver, besta e machado, e atacaram estudantes e servidores. Samuel e quatro colegas tombaram no pátio. Duas funcionárias também morreram.

Menos de 30 horas depois do massacre, Gercialdo traduziu ao Metrópoles seu pesar e perplexidade diante da tragédia sem sentido. Assim como o pai enlutado, o país tenta entender o que motivou os dois ex-alunos daquela escola, no interior paulista, a executarem com crueldade oito pessoas e, depois, cumprirem um macabro pacto de não se deixar prender. Ao ver a chegada de policiais ao colégio, o assassino de 17 anos matou o comparsa de 25 anos e depois tirou a própria vida.

Antes da chacina, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo havia registrado apenas um homicídio em 2019 na pacata cidade cuja prefeitura contabiliza 285.257 habitantes. Desde as primeiras horas até o anoitecer dessa quinta-feira (14), Suzano parou para velar e enterrar seis das vítimas. Uma multidão de 15 mil pessoas participou das cerimônias fúnebres. Nesta sexta (15), a mobilização continua, durante o enterro de mais dois corpos.

No primeiro dia de sepultamentos, a despedida do filho de Gercialdo foi a que mais mobilizou jovens estudantes e pessoas da comunidade. Para família e amigos, Samuca – apelido carinhoso do adolescente matriculado há apenas três meses na Raul Brasil – morreu como um herói.

Samuel foi alvejado após se atirar na frente de uma colega que estava sob a mira do revólver do assassino adolescente. Os tiros dirigidos à menina acertaram a cabeça e o peito do estudante. “O Samuel era um menino que gostava de ajudar. Muita gente pode estranhar seu ato, mas quem conviveu com ele sabe que essa seria uma atitude do meu filho”, frisa o impressor gráfico.

Ele se doava pelos amigos. Meu filho era um herói e ele morreu como um herói. Só tenho a agradecer os 16 anos que vivemos juntos. A companhia desse filho maravilhoso

Gercialdo Melquiades de Oliveira, pai de Samuel, 16, morto na chacina em Suzano

Veja fotos do enterro de Samuel: 

Veja fotos dos sepultamentos e velórios dessa quinta: 

 

O relato foi interrompido diversas vezes por lágrimas. Gercialdo conta que se preocupa com a mulher, ainda mais abalada, e teme pela outra filha, de 12 anos, que estuda na mesma escola. Mas a família dispensou, por ora, o apoio de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais oferecidos pelos estado e município. “Estamos amparados pelos amigos e pela família. Isso está nos consolando, confortando. Talvez aceitemos, mais para frente, quando a ficha cair”, explica o pai.

As equipes estão de prontidão desde as primeiras horas após a tragédia: mais de mil estudantes e 121 funcionários circulam diariamente pelo colégio. As aulas na cidade inteira foram suspensas. Nesta sexta, professores da escola se reúnem para definir o acolhimento a ser dado aos alunos na próxima semana: na segunda (18), apenas os servidores estarão na instituição para fechar o planejamento das ações e receber, no dia seguinte, novamente os estudantes.

Crime e polícia 
Segundo as autoridades locais, a chegada da polícia evitou que os criminosos matassem e ferissem mais gente (23 foram atendidos em hospitais da região). As investigações apontam que a dupla criminosa planejou o massacre durante um ano.

Imagens captadas por câmeras de segurança da rua onde fica a escola e da entrada da unidade de ensino mostram os criminosos chegando ao local e o ataque às vítimas. Após Guilherme Taucci Medeiros, de 17 anos, atirar contra alunos e funcionários, Luiz Henrique de Castro, 25, atingia com golpes de machado quem já estava no chão.

Veja imagens do massacre em Suzano:


Sobreviventes contaram ao Metrópoles terem passado ao lado de corpos de amigos para escaparem da fúria dos criminosos. Um estudante chegou ao hospital mais próximo ainda com o machado usado por Luiz Henrique cravado no ombro. A notícia de que havia algo errado na escola, onde boa parte da população estudou ou tem ainda algum conhecido matriculado, se espalhou rapidamente. Desesperados familiares também correram para o colégio à procura de suas crianças.

“Desde quando comecei a procurar o Samuel, no momento que recebi a notícia do tiroteio na escola, eu não durmo, não como, não sei que horas são, estou desnorteado por causa da tristeza e da preocupação com a minha família”, ressalta o impressor gráfico Gercialdo Melquiades de Oliveira.

Ele emenda: “Quando você ouve as pessoas falando de uma grande tragédia e elas dizem que parece um sonho, não é exagero. Você não consegue assimilar. Eu fico perto do [corpo do] meu filho, toco nele, olho, falo e aquilo não faz a ficha cair. Ninguém deve passar por isso”.

Amor e ódio em desenhos
Samuel tinha uma habilidade especial para desenhar, um hobby que unia pai e filho. A camiseta usada por Gercialdo durante a entrevista é uma criação dos dois para um evento religioso. No colarinho, a assinatura de cada um deles. Samuel também tinha uma peça, e foi enterrado com ela. No caixão, após o pai consentir, um amigo de classe de Samuca depositou o esboço de um personagem que ambos criaram.

O teor dos desenhos do menino era bem diferente do encontrado no caderno do assassino Guilherme, apenas um ano mais velho que Samuel. O objeto, recolhido pela polícia na casa do acusado, tinha imagens de armas e frases de ódio. Segundo os investigadores, ele e Luiz Henrique recorreram a sites extremistas em busca de orientações para levar a termo a chacina em Suzano. Também compraram on-line o arsenal, roupas, luvas e máscaras usadas no crime.

O delegado-geral de Polícia de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, disse nessa quinta-feira que existe a possibilidade de haver um outro adolescente envolvido no planejamento do ataque. De acordo com Fontes, o suspeito não esteve no local da tragédia e manteve a maior parte das conversas com os executores pessoalmente.

O delegado afirmou que a apreensão do adolescente já foi requisitada à Justiça e revelou que não está descartada a participação de um quarto criminoso. Trata-se de uma pessoa ainda não identificada, vista no local onde Guilherme e Luiz Henrique guardaram o carro no qual chegaram à escola na quarta-feira.

O veículo fora roubado da concessionária do tio de Guilherme, morto antes de os assassinos irem para o colégio. Tanto o comerciante quanto a dupla de executores foram sepultados também nessa quinta, em cerimônias reservadas e acompanhadas por poucos familiares.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
O assassino mais jovem foi sepultado no jazigo da família: ele matou o tio antes do massacre na escola

 

Apelos pela paz
Antes mesmo da divulgação de que outras pessoas possam estar envolvidas no crime, e ainda circulando pela cidade, o medo de novos ataques já dominava os moradores de Suzano. A comunidade tem se unido em oração – antes dos velórios e sepultamentos, os moradores participaram de missavigília em frente ao Colégio Estadual Rui Barbosa. Deixaram no muro flores, velas e mensagens em honra aos mortos e feridos na tragédia.

É na fé inabalável em Deus que a família de Samuel, evangélica, também busca forças para suportar a dor. “O meu filho está bem, descansando. Quando Cristo voltar, ele vai acordar. A esperança que tenho em Deus me conforta. Seria injusto eu, neste momento, jogar a minha fé para o alto”, encerra, pesaroso, o pai do estudante.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Velas foram acesas e flores, depositadas junto ao muro da Escola Professor Raul Brasil, em Suzano

 

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