Sobrevivente do ataque em Suzano: “Só pedia para Deus salvar a gente”

Alunos revelam os momentos de terror dentro do Colégio Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP): cinco colegas e duas funcionárias morreram

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 14/03/2019 9:44

Enviado especial a Suzano (SP) – O pavor está refletido nos olhos de estudantes do Colégio Estadual Raul Brasil, no município de Suzano, a 50 km da capital do estado. Cinco dos mais de mil jovens matriculados na instituição e duas dos 121 funcionários foram mortos durante um ataque promovido dentro da escola, nessa quarta-feira (13/3), por dois ex-alunos.

“Eu só pedia para Deus salvar a gente”, lembra Vitor Gabriel Tolosa, 17 anos. “Quando fecho os olhos, vejo aquele menino mascarado atirando na minha direção”, detalha Raphaela Macedo, 17. Ambos sobreviveram ao massacre que matou 10 pessoas no total: além de colegas do ensino médio e servidores da escola, um comerciante da cidade e os dois assassinos.

Horas após o atentado, os jovens sobreviventes, que não se tornaram vitimas por sorte, detalharam ao Metrópoles os momentos de pânico vivenciados na escola. Nem Vitor nem Raphaela sabem se retornarão ao colégio, que ficou banhado de sangue: imagens de uma câmera de segurança mostram o começo do ataque, com um dos assassinos disparando contra quem visse pela frente, e o outro, na sequência, executando os feridos a golpes de machado.

Vitor estava na fila da cantina para pegar a merenda quando ouviu o primeiro disparo. Pensou que era uma bombinha. “Nem dei importância. Quando escutei mais dois disparos, percebi o que estava acontecendo. Foi quando a ‘tia’ viu o atirador e foi tentar fechar a porta [da escola]”, detalha.

Veja imagens do massacre em Suzano (SP):

A “tia” é Marilena Ferreira Umezu, a primeira pessoa dentro da unidade de ensino a morrer no atentado. “Quando ela caiu, todo mundo se desesperou e correu para dentro da cozinha da escola. Ficamos trancados escutando mais de 30 tiros”, acrescenta Vitor. O pavor era tamanho que nem a chegada da polícia tranquilizou o estudante. “Quando bateram na porta, não abrimos com medo de ser o atirador”, revela.

Enquanto permaneceu trancado, o adolescente rezou. “Eu só pedia para Deus salvar a gente, para que os atiradores não abrissem a porta e que não atirassem em nós. Não tínhamos como sair dali por outro local. Eram muitos gritos e correria. Fiquei abaixado com a mão na cabeça”, lembra, angustiado.

Este é o primeiro ano de Vitor no colégio. Segundo o garoto, a rotina era tranquila, sem brigas ou atritos entre os alunos. Agora, ele pensa em mudar de instituição de ensino. “É um trauma. Minha mãe já está procurando outra escola para eu estudar”, assinala o aluno do terceiro ano do ensino médio.

Nessa quarta, para deixar o colégio, Vitor caminhou entre o sangue e os corpos dos colegas. “Entrei em choque. Vi no chão a tia [Marilena], a diretora e os alunos. Saí correndo para a rua procurando um lugar para me abrigar”, acrescenta ele.

A memória afetiva de Marilena aumenta a dor causada pelo massacre. A coordenadora, professora de filosofia, era bastante querida por estudantes e funcionários.

Pela manhã, na entrada, eu brinquei com ela. Me deixou muito abalado vê-la caída no chão. Ela nos tratava muito bem. Ela estava no chão, sendo que horas antes estávamos brincando

Vitor Gabriel, sobrevivente, sobre a coordenadora que morreu no atentado
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Vitor Gabriel Tolosa estava na cantina no momento do massacre e conseguiu se esconder: cinco colegas e duas funcionárias não tiveram a mesma sorte: ele viu a querida “tia Marilena” caída no chão, já sem vida

O menino se escondeu num posto de saúde a poucos metros do colégio depois de escapar da cena do crime. Viu estudantes chegarem ali sujos de sangue e muito abalados. “Uma menina chegou ensanguentada porque caiu em cima dos alunos mortos”, diz Vitor. Ele ligou para o padrasto ir buscá-lo. Depois disso, só chorou.

“Meu amigo foi um herói”
Já era noite quando Raphaela, a menina que o leitor conheceu no início da reportagem, ainda chorava na porta daquele que foi o destino dela durante um sem-número de manhãs. Muito abalada, a estudante do segundo ano do ensino médio contou que os amigos tentaram proteger uns aos outros durante o ataque.

“Os meninos fizeram uma parede humana para defender as garotas. Era muito desespero. Não sabíamos o que fazer”, lembra, aos prantos, a aluna da escola Raul Brasil.

Para ela, a cena mais chocante é a de um herói que perdeu a vida. Samuel Melquíades Silva Oliveira (foto abaixo), 16 anos, morreu ao tentar salvar uma colega. “O atirador apontou a arma para a menina, o Samuel viu e se jogou na frente dela. Os tiros pegaram na cabeça e no peito dele”, detalha a jovem.

Reprodução
A convivência com o Samu, como ela chamava o amigo, é o que mais lhe fará falta. “Ele era alegre, estava sempre sorrindo e brincando. Nunca vi alguém acordar 6h30 da manhã e ficar contente. Era uma ótima pessoa”, pontua.

Quando fecho os olhos, vejo aquele menino mascarado atirando na minha direção. Ele atirava com muita rapidez. Queria atingir qualquer pessoa. Só quando ele foi recarregar a arma que as pessoas conseguiam passar sem ser baleadas

Raphaela Macedo, 17 anos, sobrevivente que viu amigo ser morto

Ela considera um golpe de sorte ter se salvado. “Estávamos no pátio em dois grupos, enquanto ele [o atirador mascarado] atirava em uma [pessoa], nós do outro grupo conseguimos correr. Dois amigos meus morreram. Eu vi tanta gente morrer…”, lamenta a garota, que na noite de quarta seguia em frente à escola, em prantos e rezando pelos amigos que partiram (foto abaixo).

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Raphaela Macedo participou da vigília pelas vítimas do ataque em Suzano: ela viu o amigo se colocar na frente de uma garota e morrer baleado

Entenda o massacre em Suzano (SP)

A escola de Suzano, onde ocorreu o massacre, fica a cerca de 50 quilômetros da capital, São Paulo, e tem ensino fundamental e médio, além de um centro de línguas. Lá estudam cerca de mil alunos e trabalham 121 funcionários.

 

Vítimas
Entre as vítimas estão duas funcionárias da instituição de ensino, Marilena Ferreira Vieira Umezo e Eliana Regina de Oliveira Xavier. Cinco jovens, todos estudantes do ensino médio, e um comerciante da região também perderam a vida no ataque.

Caio Oliveira, Claiton Antonio Ribeiro, Douglas Murilo Celestino, Kaio Lucas da Costa Limeira, Samuel Melquiades Silva Oliveira estavam no pátio, durante o intervalo das aulas, quando foram surpreendidos pelos tiros.

Jorge Antônio Moraes, dono de uma locadora de veículos que fica ao lado do colégio, foi o primeiro a ser atingido pelos atiradores. Ele seria tio de Guilherme. Jorge foi socorrido e levado ao hospital municipal de Suzano, mas não resistiu.

Durante coletiva de imprensa, o comandante da PM de São Paulo, coronel Marcelo Vieira Salles, afirmou que os agentes do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, impediram que os criminosos entrassem em uma sala de aula e atirassem contra outros 10 alunos, os quais se escondiam no espaço.

Vídeos
Minutos após o ataque, um cenário de horror se formou no colégio Raul Brasil. As imagens mostram alunos caídos no chão e uma grande quantidade de sangue espalhada pelo local. Na gravação, é possível ver ao menos cinco corpos nos corredores da escola.

Estudantes correm no pátio, gritando em direção à pessoa que está gravando. Em desespero, uma aluna pede socorro. “Me ajuda, meu Deus”, berrou, ao sair correndo.

Imagens gravadas por câmeras de segurança na rua da escola filmaram o momento em que os dois atiradores estacionaram um Ônix branco em frente ao colégio e entraram para cometer o massacre. O vídeo foi divulgado pelo site O Antagonista.

Nas imagens, é possível ver o carro estacionando em frente ao portão de entrada da escola. Logo em seguida, o passageiro desce do veículo e parece conversar com o motorista. Com uma mochila nas costas e carregando algo nas mãos, ele deixa a porta por onde saiu aberta e dá a volta por trás do automóvel, parando ao lado da janela do condutor.

O rapaz parece continuar o diálogo com o motorista do carro por alguns instantes, em seguida se vira e entra na escola. O condutor demora no veículo por alguns minutos, mas logo sai com certa pressa e atravessa o portão do colégio. Assim como seu comparsa, ele levava uma mochila nas costas e carregava algo nas mãos. Em poucos segundos, vários adolescentes aparecem fugindo.

Após os assassinatos, Guilherme Taucci Monteiro, o mais novo, matou Luiz Henrique de Castro e cometeu suicídio.

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