Lilia Schwarcz: Exército como fiel da democracia indica algo errado

"Todas as vezes em que o Exército assumiu o poder foi a partir de um golpe de Estado", diz a historiadora em entrevista ao Metrópoles

atualizado 27/04/2021 9:39

Lilia ShwarczDivulgação

São Paulo – No momento em que as Forças Armadas têm se tornado protagonistas no governo federal e o Congresso discute a Lei de Segurança Nacional, que é um resquício da ditadura, a antropóloga Lilia Schwarcz faz um alerta: “Se o Exército, as Forças Armadas aparecem como fiel da nossa democracia é porque tem alguma coisa de muito errado”.

“Todas as vezes que o Exército assumiu o poder foi a partir de um golpe de estado. Golpe de estado é o oposto de democracia”, destacou, em entrevista ao Metrópoles.

Professora da Universidade de São Paulo (USP) e autora de livros como “Brasil: Uma biografia” e “A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil“, Schwarcz usa a história para fazer uma reflexão sobre o momento atual. “Nosso presente está sempre repleto de passado, então não há como avaliar o presente sem olhar para as nossas raízes e nossas bases.”

A história, na avaliação dela, poderia fazer a diferença no combate à pandemia. Ao comparar a pandemia de gripe espanhola, que atingiu o Brasil em 1918, com a Covid-19, ela diz que o Brasil teria muito a aprender se olhasse para o passado. No século passado, as autoridades não negaram a ciência, embora também houvesse tentativa de ignorar o vírus.

“Involuímos. Em 1918, as igrejas fecharam e não fizeram pressão para abrir. Ao contrário, em 1918, as igrejas só abriram as suas portas para criar hospitais de campanha e abrigar os doentes. (…) Penso que em termos de solidariedade, fomos mais solidários em 1918 do que agora em 2021.”

Leia trechos da entrevista.

Pela primeira vez temos um governo pós-redemocratização com tantos militares espalhados por toda a Esplanada e nunca se falou tanto na Lei Nacional de Segurança. Por que, mesmo após uma ditadura, existe a crença de que os militares vão colocar o país em ordem?

Tivemos uma série de gerações que não tiveram a convivência próxima com a ditadura militar e ficam com esse canto da sereia, como se a ditadura tivesse sido excelente para o Brasil. Não foi excelente em nenhum sentido. Primeiro, porque impôs aos brasileiros 17 atos institucionais, sendo o mais conhecido o AI-5, de 1968, que tirou todos os direitos dos brasileiros, além de ter sido criada uma máquina de matar no interior do governo, no interior dos DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna).

Brasileiros foram sequestrados, mortos, desapareceram, enfim, não vejo que beleza que há nesse governo que acaba com os seus cidadãos. Depois do fim da ditadura militar, em 1985, recebemos um Estado falido, com inflação tremenda. Portanto, aquela ideia de que foi ótimo financeiramente, não foi. Basta ver os números e os dados.

Outra ideia em geral associada à ditadura militar, de que foi um momento sem corrupção, não é verdade. Basta ler os livros para ver que existiu muita corrupção.

Em qualquer circunstância, se o Exército, as Forças Armadas aparecem como fiel da nossa democracia é porque tem alguma coisa de muito errado. Todas as vezes que o Exército assumiu o poder foi a partir de um golpe de estado.

Golpe de estado é o oposto de democracia, é quando você retira um governo democraticamente eleito e instaura um governo que não foi democraticamente eleito. Me preocupo muito com essa visão, sobretudo porque ela é fabuladora. Ela cria um modelo de ditadura militar em um passado nostálgico que jamais existiu.

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Conhecer melhor a história do Brasil pode fazer diferença para a população?

Penso que a história nunca se repete completamente, mas sempre dá uma boa lição. Gosto da citação de um historiador que diz que não somos mais inteligentes ou mais espertos do que as pessoas que viveram logo antes do período da Segunda Guerra Mundial. Nós só podemos contar com a nossa experiência.

Na minha opinião, a história passa uma experiência. A história explica, e de alguma maneira ilumina uma reflexão. Isso porque o nosso presente está sempre repleto de passado, então não há como avaliar o presente sem olhar para as nossas raízes e nossas bases.

O que o Brasil pode aprender se olhar para o passado e analisar a relação com a gripe espanhola?

O Brasil foi atingido pela gripe espanhola na segunda onda, portanto, no segundo semestre de 1918. Assim como em 2020 e 2021, a primeira resposta foi de negação, com os brasileiros achando que por viver em um país tropical, a gripe não chegaria. Mas em 1918, quando as autoridades notaram que, de fato, a gripe havia chegado, elas seguiram os protocolos das autoridades sanitárias. Não existiu o que está acontecendo em 2020 e 2021.

Na época, havia a cloroquina, o sal de quinino. Já naquela época, ela era empregada contra a malária. E teve todo tipo de espertão, sobretudo os farmacêuticos, que tentou empurrar a cloroquina, mas nenhuma autoridade política negou as recomendações da saúde que já diziam em 1918 que a cloroquina não era indicada.

Involuímos. Mais um exemplo para mostrar nossa involução: em 1918, as igrejas fecharam e não fizeram pressão para abrir. Ao contrário, em 1918, as igrejas só abriram as suas portas para criar hospitais de campanha e abrigar os doentes. O mesmo aconteceu com os clubes esportivos, que fizeram a mesma coisa. Fecharam suas portas para os associados, mas abriram para cuidar dos infectados por gripe espanhola.

Penso que, em termos de solidariedade, fomos mais solidários em 1918 do que agora em 2021. A gente sempre pode mudar. Estamos vivendo uma época de crise, e crise quer dizer decisão. Está nas mãos dos brasileiros mostrar mais solidariedade, e está nas mãos dos nossos políticos não caírem no canto da sereia da saúde preventiva, que não existia em 1918 e não existe hoje em dia no caso da Covid-19.

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O que fez com que a gente desse esse passo para trás?

Acho que no caso do Brasil essa emergência sanitária que estamos vivendo coincidiu com um governo muito populista e tecnológico. Populista no sentido de que prefere falar mentira do que falar a verdade.

Falar a verdade demora muito, é preciso explicar muito e nem sempre aquele que vai ouvir quer de fato ouvir o que você quer explicar. Falar mentira é fácil, basta uma frase.

Temos um governo que tem claro desdém pelos jornalistas, pelas instituições democráticas, pela academia e pela ciência, mas a nossa única saída será via ciência, que foi o que aconteceu em 1918. Nosso problema é essa coincidência entre a crise sanitária com um governo que não respeita as diretrizes da ciência.

Além do desrespeito à ciência, vemos retrocesso em outras áreas, especialmente em relação aos direitos humanos, como nos direitos da população indígena. Você vê indício de mudança?

No panorama recente, não vejo. O único lado positivo nessa história é que, desde a Constituição Cidadã de 1988, que mostrou como eram legais as reservas indígenas e implicou o governo em uma política de legalização das terras, houve um crescimento muito grande das populações indígenas e da reivindicação indígena, do ativismo. Eles são hoje agentes políticos que precisam ser ouvidos e merecem uma resposta. Acho que o importante será seguir o protagonismo indígena.

Como?

Nós não somos protagonistas, mas, como diz Angela Davis, precisamos ser antirracistas e tomar atitudes antirracistas. E nós demonstramos o antirracismo de forma prática, não de forma só moral. Fazemos isso abrindo mão do nosso privilégio, do nosso espaço para as populações indígenas, espaço para professores e professoras indígenas, os artistas indígenas, abrindo caminhos. Aí sim teremos uma cidadania mais plena, mais inclusiva e mais plural.

A história mostra que o descobrimento do Brasil não foi pacífico, como dizem ter sido, e que o país é mais racista do que se imagina. Por que esse choque de narrativas?

A gente sabe que cada governo cria suas narrativas e que existe sempre uma batalha de narrativas. Essa é uma primeira explicação. A segunda explicação é que tem que existir uma ponte de maior tráfego entre as pesquisas da academia e a produção de material didático. Só dessa maneira teremos uma contaminação das duas partes.

O que a história aponta para o futuro?

A história é muito ruim de previsão. Os historiadores são muito conservadores. Nós preferimos analisar processos que se encerram. É muito difícil, porque a história do presente pertence a todo mundo. Costumo dizer que sou otimista no atacado e pessimista no varejo. Penso que temos que apostar no nosso conhecimento, na nossa ciência, na nossa capacidade de produzir mais conhecimento e boa informação, temos que apostar na cidadania.

A cidadania é uma franquia da democracia, e é de cada um. Cada um no seu lugar pode vestir a roupa de um cidadão brasileiro, e nesse sentido cobrar medidas que tenham coerência e que falem respeito à ciência e à boa informação.

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