Aposta de Bolsonaro contra Covid-19, cloroquina encalhada abasteceria cidades por até 100 anos

Levantamento do Metrópoles aponta que, em alguns estados e capitais, até 92% das doses recebidas foram devolvidas ou estocadas

atualizado 20/12/2020 11:19

bolsonaro e cloroquinaIgo Estrela/Metrópoles

Aposta política do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para tratamento precoce da Covid-19 – apesar de não haver comprovação científica –, comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina estão encalhados em estoques de municípios e estados brasileiros. Há casos em que o padrão de retirada serviria para um século de abastecimento.

No total, o Ministério da Saúde informa ter distribuído ao menos 5,9 milhões de comprimidos do remédio em todo o país. O Metrópoles consultou todas as 27 secretarias de Saúde das unidades federativas, e solicitou informações às prefeituras das principais capitais brasileiras e grandes cidades do interior, com o intuito de mapear os estoques do medicamento.

Procuradas há mais de uma semana, 16 secretarias estaduais de Saúde responderam – as outras 11 não se manifestaram. Juntas, receberam 4,715 milhões de comprimidos de cloroquina. Deste total, no entanto, 1,161 milhão de doses já foram devolvidas para o Ministério da Saúde e 484 mil, estocadas e guardadas para eventual futuro uso.

Só os efetivamente devolvidos, somados aos armazenados para qualquer eventualidade de súbito interesse pelo remédio, representam o não uso de quase 35% do total enviado pelo governo federal a todo o país – e com o balanço de 16 unidades federativas, não das 27. Mesmo nos 65% restantes, porém, os relatos são de quase total desinteresse pela substância defendida por Bolsonaro. Logo, os 2,449 milhões de comprimidos enviados (ou seja, não estocados nem devolvidos) por esses estados podem ainda estar parados nas inúmeras cidades brasileiras.

A apuração sinaliza que, nos próximos meses, pode haver uma nova enxurrada de remessas ao Ministério da Saúde de medicamentos pagos pelo governo federal, em meio à campanha intensiva do presidente da República em defesa da cloroquina, e prestes a vencer.

De acordo com informações obtidas pelo Valor Econômico junto às Forças Armadas, o valor de produção de cada comprimido de cloroquina e hidroxicloroquina, , no Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx), é de R$ 0,21. Assim, os 2,449 milhões de pílulas enviadas custaram cerca de R$ 514,3 mil para serem confeccionados.

Esse preço, entretanto, é uma estimativa. Isso porque o preço da cloroquina subiu desde que a informação foi fornecida pelo Exército, em abril de 2020. A cotação levava em conta o preço de R$ 488 por quilo de cloroquina e a própria força já trabalhava com uma possível inflação do insumo. Além disso, não estão incluídos neste cálculo os gastos de logística e armazenagem dos produtos encalhados no Brasil.

No nordeste de Santa Catarina, Blumenau recebeu 36 mil doses do medicamento e, até 23 de novembro, apenas 89 foram consumidas pelos pacientes, segundo o jornal NSC Total. Na prática, mantido esse ritmo, a cidade da tradicional Oktoberfest precisaria de ao menos 100 anos para finalizar todo o estoque do remédio – a cloroquina enviada ao município, contudo, vence em maio de 2022.

O estado de São Paulo, onde gestores de saúde deliberaram, em sintonia com as recomendações científicas, pela não recomendação do uso da cloroquina em casos leves e moderados de Covid-19, recebeu 986 mil comprimidos do medicamento. O governo estadual resolveu devolver 588 mil doses e estocar 35 mil.

“Quero dizer que não se prescreve receita por decreto. São Paulo não vai aceitar que, por decreto, se estabeleça receituário médico. Em nenhuma parte do mundo se trata saúde por decreto ou medida de ordem política”, disse o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em maio deste ano, sobre ato publicado por Bolsonaro.

Em Roraima, de acordo com dados da secretaria estadual, foram recebidas 262 mil doses de cloroquina (o governo federal informou que foram 420 mil). Isso é uma para cada três habitantes. Contando apenas as pessoas diagnosticadas com Covid-19 (o que não implica estarem tomando o medicamento), seriam quatro comprimidos para cada um. O estado não informa se devolveu alguma quantidade nem revela quantos foram efetivamente prescritos e retirados por pacientes.

Já o estado do Espírito Santo informou ter recebido 122 mil compridos, dos quais 94 mil foram dispensados a hospitais da rede estadual e municípios capixabas. Não há informação sobre quantos foram efetivamente entregues a pacientes. A Secretaria de Saúde, porém, tem notado desinteresse das cidades pelo medicamento nos últimos meses, o que pode dificultar mais ainda a retirada do estoque.

“A gerência esclarece que, de maio a dezembro deste ano, foram realizadas 41 solicitações de 36 municípios capixabas, com a dispensação de pouco mais de 94 mil comprimidos. Entretanto, observa-se uma baixa procura nos últimos meses, tendo registrado em outubro, novembro e dezembro apenas uma solicitação por mês”, informou.

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O Metrópoles contatou as autoridades de saúde de nove capitais brasileiras: Aracaju (SE), São Paulo (SP), Boa Vista (RR), Belém (PA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), Vitória (ES) e Belo Horizonte (MG). Estas cidades receberam 1,27 milhão de comprimidos. Deste total, 1,17 milhão de medicamentos (92%) foram estocados ou devolvidos.

A capital paulista recebeu 894,9 mil comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina. Apenas cerca de 24,3 mil (2,7% do total) foram fornecidos aos pacientes (seja para Covid-19 ou outras doenças), 796,4 mil permanecem estocados e 74,1 mil foram devolvidos. Levando em consideração que as primeiras doses foram recebidas em abril, a Prefeitura de São Paulo precisaria de ao menos 265 meses (22 anos) para zerar o estoque, mantido o atual ritmo de retirada dos medicamentos. A data de vencimento, contudo, está marcada para novembro de 2021.

A capital do país também apresenta uma situação de excesso. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou ter recebido 72 mil doses de cloroquina do Ministério da Saúde, que foram distribuídas para cerca de 50 unidades básicas de Saúde (UBS). Só 9,2 mil doses (12% do total) foram consumidas. Neste ritmo, seriam necessários mais 5 anos pela frente para o consumo de todo o estoque.

Boa Vista, capital de Roraima, recebeu 211,1 mil doses de cloroquina. A cidade tem 419,6 mil habitantes, segundo dados estimados neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso equivale a um comprido para pouco menos de cada dois habitantes.

A Prefeitura de Boa Vista informou que 50,6 mil habitantes foram diagnosticados com a Covid-19, de acordo com dado mais recente disponível, do último dia 14 de dezembro, em plataforma local. A Secretaria Municipal de Saúde revelou que pouco mais de 29 mil comprimidos (13,7% do total recebido) foram distribuídos para as farmácias, tendo permanecido 182 mil estocados. A pasta não especificou, entretanto, o total de doses usadas, uma vez o remédio ainda pode estar nas prateleiras das unidades de saúde.

Essa falta de exatidão, inclusive, tem sido comum ao longo das capitais procuradas. Somente Aracaju, Brasília, Belém e São Paulo souberam informar a quantidade de doses consumidas. Além de Boa Vista, Vitória, Belo Horizonte e Recife detalharam apenas o número de doses enviadas às farmácias e aos hospitais.

A cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, explicou que não tem recomendado o uso do medicamento e não detalhou o uso de doses recebidas. “A Secretaria Municipal de Saúde não tem em seu protocolo de atendimento aos pacientes internados a orientação do uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19”, afirmou.

O estado fluminense recebeu 226 mil comprimidos, mas não informou quantos foram repassados à capital – que, no balanço de sexta-feira (18/12), respondia por 38,6% dos casos e por 58,4% das mortes de todo o RJ. Teoricamente, a cidade que não usa a substância em seu protocolo de atendimento deveria receber boa parcela do estoque estadual.

Outro lado

Procurado, o Ministério da Saúde não se manifestou. O espaço segue aberto.

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