Após chacina, Paracatu é uma cidade dividida entre a dor e a revolta

Ao mesmo tempo em que procura entender a tragédia, população busca alternativas para evitar escalada da violência. Atirador tentou suicídio

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 23/05/2019 21:50

Enviado especial a Paracatu (MG) – O dia 21 de maio de 2019 ficará marcado na história de Paracatu, município mineiro distante 234 km de Brasília, como um dos mais sangrentos da cidade, de pouco mais de 93 mil habitantes.

Nessa data, o empresário Rudson Aragão Guimarães, 39 anos, descontrolado, matou a ex-namorada com um golpe de canivete no pescoço e abriu fogo contra fiéis de uma igreja evangélica.

Pouco mais de 80 horas após a matança, os moradores de Paracatu ainda buscam respostas. O caso desencadeou na cidade um misto de recolhimento e revolta.

O mestre de obras José Maria Martins de Souza, 60, se irrita ao falar do caso. Nesta quinta-feira (23/05/2019), ele conversava com um amigo sobre o assunto numa praça no centro de Paracatu.

“Nunca tinha visto isso. Não tem como entender. Fiquei sabendo pela TV. Conheço a igreja. Esse é um lugar aonde as pessoas vão para buscar paz”, inicia.

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Para o mestre de obras José Maria Martins de Souza, os reflexos da matança jamais serão superados

 

Para ele, os reflexos da matança jamais serão superados. “Como vamos andar na rua? A cidade não tem sossego mais, não. Chega uma pessoa e faz o que ele fez, deixa um trauma muito profundo na gente”, encerra, visivelmente abalado.

José Maria dialogava com o aposentado João Tavares, 65. Nascido na zona rural do município, ele está perplexo. “Um sujeito desses não tem família, não tem amor à vida, não acredita em Deus e não merece estar entre nós”, desabafa.

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O aposentado João Tavares diz que sente ódio do agressor quando pensa no que aconteceu

 

“Sinto ódio”
O idoso diz que não consegue ter outro sentimento por Rudson. “Ele é uma pessoa conhecida na cidade, que tem seus problemas, mas nada justifica. Sinto ódio dele quando penso nisso”, confessa.

A auxiliar de limpeza Beatriz Aparecida Melo, 24, estava em casa quando ficou sabendo da tragédia por um grupo no WhatsApp. “Não acreditei. Já havia conversado com ele. É uma pessoa que aparenta ser normal”, lembra.

Com o desenrolar do caso, Beatriz ficou boquiaberta. “É complicado assimilar tudo que aconteceu. Parece que a tragédia invadiu nossas casas”, lamenta. Para ela, essa será uma ferida que jamais será cicatrizada completamente.

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Assustada, a auxiliar de limpeza Beatriz Aparecida Melo acredita que a chacina é uma ferida que jamais será cicatrizada completamente

Toda vez que a data chegar, que passarmos em frente à igreja e encontrarmos um parente das vítimas, o peito vai doer e o coração, apertar.

Beatriz Aparecida Melo, auxiliar de limpeza e moradora de Paracatu

Nesta quinta, os investigadores começaram a ouvir formalmente as testemunhas dos crimes, analisaram os resultados das perícias e fizeram novas diligências. Ainda falta saber a origem da arma usada nos assassinatos e o que motivou a ação.

 

 

Passo a passo do crime
Por volta de 20h da última terça (21/05/2019), Rudson Aragão Guimarães foi à casa da mãe dele, onde também estava a ex-namorada Heloísa Vieira Andrade, 50. Lá, ele esfaqueou a mulher no pescoço com um canivete. Ela morreu a caminho do hospital, devido a uma parada cardiorrespiratória.

Minutos depois, Rudson invadiu a igreja evangélica Shalom. Lá, atirou contra Rosângela Albernaz, 50, e Antônio Rama, 67, que não resistiram aos ferimentos e morreram. A intenção dele, segundo a polícia, era matar o pastor Evandro – mas, como este fugiu com a ajuda de fiéis, Rudson alvejou o pai do religioso por vingança.

Rudson ainda rendeu outra fiel e a manteve sob ameaça. A Polícia Militar chegou ao local da ocorrência e tentou negociar. Nervoso, ele disparou contra Marilene Marins de Melo Neves, 38, a quarta vítima.

O atirador foi ferido pela Polícia Militar com tiros na mão e no ombro, então foi levado para o hospital – onde, segundo os médicos, está isolado e tem reagido bem ao tratamento.

Tentativa de suicídio
Nesta quinta-feira, às 6h50, Rudson tentou suicídio, ferindo-se em três partes do pescoço com uma lâmina de bisturi. “O paciente foi atendido pela equipe cirúrgica. Ele permanece internado e sob escolta”, destaca a Prefeitura de Paracatu, em nota.

A direção do Hospital Municipal de Paracatu instaurou uma investigação administrativa, uma vez que o paciente, mesmo sob escolta de dois agentes da Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi), conseguiu ter acesso à lâmina.

Difícil convivência
O atirador é descrito como um homem temperamental, impulsivo e envolvido com drogas. Rudson é conhecido como uma pessoa de difícil convivência.

Os mais próximos a ele contam que o agressor, empresário do ramo imobiliário, vivia o momento de maior conforto financeiro. Apaixonado por animais e motos, muitos estranharam a arrancada violenta contra a ex-namorada.

Veja quem são as vítimas do ataque:

Heloísa Vieira de Andrade
Ela era ex-namorada do atirador e morreu ao ser golpeada com um canivete no pescoço. Heloísa trabalhava como coach, dava treinamentos em empresas e palestras. A vítima estava na casa dos familiares de Rudson quando foi morta.

 

Rosângela Albernaz
Era fiel da Igreja Batista Shalom e proprietária de uma lanchonete que fica a um quarteirão do local. Segundo a Polícia Militar, a vítima, de 50 anos, tinha duas filhas e estava na reunião junto com o marido quando ocorreu o ataque.

 

Antônio Rama
Aposentado, Antônio morreu aos 67 anos. Era membro da igreja e pai do pastor Evandro Rama, que celebrava o culto na hora do crime. Com base em informações da PM, o atirador entrou na Igreja Batista Shalom procurando pelo líder religioso e atirou contra o pai dele por vingança.

 

Marilene Marins de Melo Neves
Fiel da igreja, Marilene trabalhava como serviços gerais na Escola Municipal Coraci Meireles e auxiliava na cantina da Creche Domingas de Oliveira. Ela era casada, tinha filhos e um neto.

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