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O voto que se perdeu e a fuga de um covarde

Como 60 milhões de eleitores decidiram fechar os olhos para o abismo, transformando crimes de colarinho branco em guerra cultural intocável

28/10/2026 04:30
Igo Estrela/Metrópoles
O voto que se perdeu e a fuga de um covarde

Não me espanta que mais um criminoso tenha fugido do país com medo de ser preso. Espanta-me, sim, que o meliante em questão, 48 horas antes, tenha obtido quase 60 milhões de votos para se eleger presidente do Brasil.

As pessoas não sabiam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam ou deveriam saber. Era público e notório. Mas pouco importou.

Essa conivência das urnas expõe um profundo cinismo institucional e o enfraquecimento do nosso pacto democrático. Ao chancelar o nome de alguém que despreza o próprio sistema legal que pretendia chefiar, o eleitorado normalizou a ideia de que as leis só se aplicam aos adversários. O resultado é a erosão do princípio republicano fundamental de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que corrói a confiança nas regras do jogo democrático.

Na verdade, a polarização política cegou o discernimento ético, transformando o candidato em um símbolo de guerra cultural intocável. Para os seus eleitores, os crimes de colarinho branco e o desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados sob o pretexto de uma suposta perseguição, provando que a paixão cega por um líder há muito substituiu o compromisso com a moralidade pública.

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Não sabiam que ele, se derrotado, tentaria evadir-se? Claro que sim. Um irmão dele que vive nos Estados Unidos, em entrevista a um podcast na semana passada, antecipara que ele fugiria, caso não se elegesse. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também voou em busca de proteção em terra alheia.

Família que bate continência para a bandeira americana compartilha dos mesmos valores e, por mais que brigue entre si, permanece unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo – aqui ou em qualquer outro lugar. Faltou incluir dinheiro, de preferência muito e sujo.

O que assistimos ontem não foi apenas a fuga covarde de um indivíduo que tem contas a pagar com a justiça, mas o retrato de um país anestesiado, onde metade do eleitorado escolheu fechar os olhos para o abismo e continua insanamente a ampliá-lo.

Validar nas urnas quem já desprezava as leis e só defendia a ordem bruta e o tacão é a prova cabal de que a nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica.

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