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O tempo fechou para Flávio Bolsonaro a quatro dias das eleições

A ilusão da "guerra justa" cai por terra em época de votação: os dossiês, boatos e mentiras que moldaram o Brasil de ontem e o de hoje

30/09/2026 04:30, atualizado 30/09/2026 05:20
Reprodução/YT
O tempo fechou para Flávio Bolsonaro a quatro dias das eleições

Não existe guerra limpa que pelo menos respeite as regras estabelecidas pelo Direito Internacional; todas as guerras são sujas. Dado o horror que produzem, se as guerras fossem transmitidas em tempo real e sem qualquer censura, talvez elas deixassem de existir. Dá-se o mesmo no caso da política, especialmente em época de eleições, momento em que o poder está em disputa. No entanto, a alternância no poder é um dos pilares da democracia — e, apesar de suas imperfeições, ainda não se inventou um regime melhor do que esse.

A desinformação e a propaganda enganosa não surgiram com a internet. A história das eleições brasileiras é marcada por boatos, falsificações e manipulações que alteraram os rumos políticos do país muito antes de o termo fake news se popularizar.

Meses antes da eleição presidencial de 1922, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou cartas atribuídas ao candidato Artur Bernardes. Elas chamavam os militares de “canalhas”. Embora fossem falsificações grosseiras, as cartas geraram uma crise militar profunda e quase impediram a posse de Bernardes.

Na primeira eleição após a ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), panfletos falsos foram espalhados alegando que o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes, teria dito que “não precisava dos votos dos marmiteiros” (trabalhadores das classes mais baixas). A frase forjada arruinou sua imagem popular na reta final e ajudou a eleger 0 general Eurico Gaspar Dutra.

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A eleição de 1989, entre Fernando Collor e Lula, foi o ápice do uso de narrativas de forte apelo emocional na televisão. Collor levou ao seu programa eleitoral a enfermeira Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, que o acusou falsamente de ter sugerido que ela abortasse uma filha do casal. Posteriormente, soube-se que Miriam fora paga para dar aquele depoimento.

No dia do segundo turno daquele mesmo ano, a polícia estourou o cativeiro do empresário Abílio Diniz, que havia sido sequestrado, e encontrou panfletos do PT com os sequestradores. Mais tarde, descobriu-se que os policiais haviam obrigado os criminosos a vestir camisetas do partido para serem fotografados, criando uma associação falsa deliberada nas vésperas da votação.

Boatos espalhados por correntes de e-mail e panfletos apócrifos diziam que, se o candidato José Serra (PSDB) vencesse a eleição de 2010, ele extinguiria o programa Bolsa Família. Na mesma ocasião, boatos religiosos focados em pautas morais e no aborto foram amplamente usados contra a candidata Dilma Rousseff (PT).

Não foi diferente em 2014. A campanha de Dilma à reeleição veiculou comerciais no rádio e na televisão sugerindo que o projeto econômico da adversária Marina Silva (PSB) entregaria a autonomia do Banco Central aos banqueiros, fazendo com que a comida sumisse, literalmente, do prato dos trabalhadores brasileiros.

“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse Dilma na época. Foi o que fez Jair Bolsonaro (PL) em 2018 para derrotar Fernando Haddad (PT). Circularam massivamente vídeos alegando que Haddad distribuiria livros de educação sexual inadequados nas escolas primárias (batizados falsamente de “kit gay”) e mamadeiras com bicos em formato peniano para creches.

Flávio Bolsonaro queixa-se de ser vítima de uma notícia falsa sobre sua suposta disposição de se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mas, em 2022, vendo que seu pai, então presidente da República, corria o risco de não se reeleger, o próprio senador foi um dos impulsionadores do boato de que Lula fecharia igrejas evangélicas caso vencesse a eleição.

Aparentemente, não há falsidade no fato relatado pelo site PlatôBR de que Flávio participou de festas com garotas de programa anos atrás, tendo empresários e amigos custeado algumas de suas despesas. Há imagens e documentos que comprovariam isso, reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio em uma franquia de chocolates no Rio de Janeiro que foi suspeita de lavagem de dinheiro.

O advogado Alan Belaciano aparece no dossiê de Santini como pagador de equipamentos para a academia da residência de Flávio em Brasília, cujo valor ultrapassou R$ 90 mil, além de um relógio de luxo da marca Rolex, modelo em ouro branco, adquirido por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Procurado por jornalistas, Flávio negou-se a declarar qualquer coisa a respeito.

A poucos dias da eleição, o tempo fechou para Flávio, e não há sinais de que se abrirá tão cedo.

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