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Fuga grotesca (por El País)

A fuga de Flávio Bolsonaro, orquestrada por Trump e Milei, é uma afronta aos quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele

02/11/2026 11:05
Reprodução/Redes Sociais
Flávio Bolsonaro com o irmão Eduardo, em Miami

A máscara de moderação com a qual Flávio Bolsonaro tentou enganar os brasileiros durante a campanha eleitoral caiu assim que os resultados das eleições, anunciados no domingo, frustraram sua candidatura à presidência do maior país da América Latina. Na hora da verdade, Bolsonaro Jr. revelou a mesma natureza de seu pai, que foi impedido de concorrer à presidência após ser condenado por conspiração para um golpe de Estado quando perdeu a eleição quatro anos atrás.

Assim como seu pai, Jair, fizera em 2022, a primeira reação de seu filho mais velho e candidato escolhido a dedo foi recusar-se a reconhecer a clara vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No dia seguinte, Flávio Bolsonaro pareceu recuar, assegurando a todos que serviria como líder da oposição e, diante de rumores de uma possível fuga para o exterior, proclamou solenemente que permaneceria no Brasil “como o último obstáculo à destruição do país”. Enganou a todos, a começar por seus colaboradores mais próximos. Poucas horas depois, encenou uma fuga farsesca para os Estados Unidos via Argentina. E, já instalado lá com sua família, dirigiu uma carta delirante ao povo brasileiro na qual, sem o menor fundamento, reiterou suas alegações de fraude eleitoral e se autoproclamou presidente eleito, embora posteriormente tenha se retratado em uma versão posterior.

Flávio Bolsonaro se apresenta como alvo político porque, após sua derrota, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou a entrega de seu passaporte devido ao seu suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro cuja investigação está sob sigilo. A pressa da ação de Moraes pode ser questionada. Mas, por mais que o ex-candidato lamente, o Brasil, com todas as suas imperfeições, é uma democracia que lhe oferece ferramentas legais suficientes para se defender. Sua fuga representa um desrespeito aos quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele e a quem ele prometeu representar.

A teoria da conspiração já nem sequer conta com o apoio dos principais líderes do partido político de Bolsonaro, o Partido Liberal (PL). O argumento do fugitivo a respeito da questionável decisão judicial, tomada no dia da eleição, de estender o horário de votação por mais duas horas é absurdo. Apenas 34 mil pessoas votaram durante esse período extra, enquanto Lula venceu com quase 4,5 milhões de votos de vantagem.

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Mesmo fora do Brasil, há quem continue a insistir na fraude. Ninguém menos que Donald Trump, especialista em tais teorias da conspiração quando as coisas lhe correm mal. Nesse sentido, seus imitadores mais fiéis têm sido os apoiadores de Bolsonaro, que em 2022 copiaram em Brasília a invasão do Capitólio que os apoiadores de Trump haviam realizado dois anos antes em Washington, em ambos os casos para se rebelarem contra uma derrota eleitoral. A fuga de Bolsonaro contou com a cumplicidade essencial do governo Trump. A outra peça que completa essa farsa é Javier Milei, que também não reconheceu a vitória de Lula. O argentino foi ao Brasil durante a campanha para apoiar Bolsonaro e lançar uma enxurrada de insultos contra Lula. Agora, o acobertamento por parte de seu governo também foi essencial para facilitar a fuga do ex-candidato brasileiro, sabendo muito bem que ele estava fugindo da justiça em seu país. Trump e Milei, Milei e Trump, dois exemplos transparentes do respeito desses líderes pelos procedimentos legais, pela diplomacia nas relações internacionais e pela vontade dos cidadãos expressa nas urnas.

(Transcrito do El País)