
Viajemos nas asas do futuro (por Roberto Caminha Filho)
No último PISA, o Brasil ficou pertinho das últimas posições entre mais de 80 países avaliados

Ontem, fiquei doente das idéias! Entreguei uma relação de compras para a Laide e ela fez uma cara de cega. Desconfiei, a moça fala direitinho. Os verbos saem naturalmente, como se tivesse estudado e aprendido com o professor João Crisósthomo. Apertei-a com muito carinho e descobri: a Laide não sabia ler. Adoeci na horita!
Doente com o que vi, saí para comprar um livro para que eu pudesse ensinar a minha querida cozinheira e com a finalidade de zerar o analfabetismo na minha casa. O primeiro nocaute foi o preço do livro: R$170,00 e a cidadã já podia escrever no livro. Também comprei lá lápis e borracha. Caríssimos! Dei a primeira aula e senti que a vida de professor é mais heroica do que pensei. Contratei uma professora particular para a funcionária. Fiquei satisfeito com o que fiz. É puro merecimento. Para trabalhar e poder receber o Bolsa Família, saber ler deveria ser obrigatório. Assim como fazem no Serviço Militar.
O Brasil realmente vem caindo em vários indicadores internacionais de educação, especialmente em matemática, leitura e ciências. O principal termômetro mundial é o exame Programme for International Student Assessment, aplicado pela Organisation for Economic Co-operation and Development a estudantes de 15 anos.
No último PISA, o Brasil ficou pertinho das últimas posições entre mais de 80 países avaliados. Em matemática, por exemplo, mais de 70% dos alunos brasileiros não conseguem resolver problemas básicos do cotidiano. Em leitura, metade dos estudantes tem dificuldade para interpretar textos simples.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAgora vem a parte que dói no bolso e no orgulho: alguns países africanos, que antes eram tratados com arrogância pelo brasileiro médio, começaram a avançar mais rápido em alfabetização, disciplina escolar e formação de equipes com muito carinho e muita técnica. Países como Rwanda, Kenya e Botswana têm mostrado melhora consistente em avaliações regionais e internacionais.
O nosso problema brasileiro não é apenas falta de dinheiro. O Brasil já gasta por aluno, proporcionalmente ao PIB, mais do que muitos países emergentes. O drama é a eficiência. Temos uma máquina educacional pesada, politizada e frequentemente incapaz de ensinar português e matemática com qualidade. Sabemos, e não precisa escrever por aqui, o que acontece, de fato com a falta de verba e excesso de ofertas de programas e livros nas nossas escolas.
O meu economista predileto, Roberto Campos, dizia que “o Brasil não perde oportunidades, perde tempo”. Na educação, perdemos, sempre, e com muita eficiência, gerações inteiras. Criamos debates ideológicos intermináveis enquanto crianças chegam ao ensino médio sem conseguir escrever um texto ou fazer regra de três. O Paulo Figueiredo, nosso advogado e professor de português dizia, do alto da sua inteligência: se entregares para um brasileirinho a frase: A BOLA É AZUL! Ele lê com uma rapidez fantástica. Só não consegue responder a segunda pergunta: Explica a frase. Aí tu mataste o ser. Ele não sabe o que leu.
Outro dado assustador: muitos jovens terminam a escola sem compreensão mínima de finanças, ciência ou interpretação crítica. Resultado? Um país vulnerável à manipulação política, econômica e digital. Seria o caso de usar o SEBRAE para isso. Nós temos os instrumentos para isso. O que falta é a tal da “Vontade Política” de cobrar o que tanto precisamos.
Enquanto asiáticos treinam engenharia e programação, e africanos começam a acelerar alfabetização básica, o Brasil ainda discute se prova reprova, se matemática traumatiza e se disciplina é “opressão”.
O resultado aparece na cara do mercado: baixa produtividade, salários ruins e fuga dos nossos cérebros mais capazes. País rico em minério, água, agro e petróleo, mas paupérrimo em capital humano qualificado.
E aqui entra a ironia amazônica: o Brasil, deitado eternamente em berço esplendido e numa mina de ouro natural, mas às vezes parece querer administrar o país com uma calculadora sem pilha e um boletim assinado pelo tio do recreio.
O quinto mandato do nosso incrível PT terá que enfrentar tudo isso, nas salas de aula do nosso cotidiano.
Acabou a eleição! Deixemos os ônibus e as chuvas no passado e viajemos nas asas do futuro.
Roberto Caminha Filho, economista, fez a sua parte no Alfabetização e se sentiu Ministro da Educação. Feliz da vida!

