Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

A Revolução de Outubro (por Pedro Costa)   

Vermelha, mas pacífica

02/11/2026 08:00
VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Apoiadores do presidente Lula comemoram reeleição do petista na região do Bar do Pardim eleicoes 2026 metropoles

Em 25 de outubro de 1917 a Revolução Bolchevique levou o povo ao Poder. E neste 25 de outubro de 2026 novamente o povo chegou ao Poder. Por trás das duas revoluções estavam as ideiam generosas que já haviam servido às revoluções francesa e americana: da igualdade, da fraternidade, da liberdade e da busca da felicidade. As vítimas, lá na Rússia como aqui no Brasil, foram poucas. Lá, pela força, instalou-se uma ditadura; aqui, pelo voto, evitou-se uma ditadura.

Nossa conquista deveu-se a muita coisa, mas, em primeiro lugar, à extraordinária iniciativa dos jovens. Mas que tudo, mais que a liderança impecável de Lula, sua mobilização trouxe a esperança de um futuro de justiça e paz. Nunca poderão ser esquecidas as multidões que foram às ruas, as que deram um drible nos desígnios de controle do mundo dos Zuckerberg e Musk.

É preciso tirar as consequências de nossa revolução pacífica. A primeira delas é que o povo não pode deixar os instrumentos de governo a Deus dará. Ele precisa manter uma pressão permanente para que os eleitos não abusem nem se lambuzem. Para isso a lição de organização de Janones, como ele mesmo reconhece, tem que passar da estrutura “eu mando e vocês obedecem” — lembro que o voto do exército que atingiu a maior dominação universal, a Companhia de Jesus, tinha como principal voto o “obedecer [ao Papa] como um cadáver” — para tornar-se uma rede de ideias múltiplas e díspares, que se harmonizem e cheguem ao único objetivo legítimo, o bem comum.

Também é preciso esquecer a ideia de “pacificação”, isto é, acomodação com os delírios fascistas da extrema-direita. Esse é o caminho que se tomou no primeiro turno e que leva à derrota. A busca da Paz não aceita o Mal. O “rejeita a Satanás?” tem que ser respondido todos os dias com um “sim” enfático. Cada milímetro que se cede custa muito caro para recuperar. Os versos de Martin Niemöller, no campo de concentração onde morreu, tão copiados e deformados, devem nos servir de aviso: “…quando vieram me buscar, não havia mais ninguém para protestar.”

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Isso inclui, por evidente, rejeitar a ideia absurda de anistia ou indulto para Jair Bolsonaro e seus companheiros. A lição deixada pelos golpistas anistiados é universal, e inequívoca em nossa história: todos os anistiados tentaram novamente dar golpes, e muitos conseguiram. É inevitável negociar com o Centrão e os Davids e Huguinhos (é aconselhável tapar o nariz), mas o governo e o povo, na rede e nas ruas, têm que manter o projeto democrático integralmente, sem ceder. Eles têm mais a perder. Continuando nos alemães, a lição de Goethe no Fausto é inarredável.

A fuga preparada do criminoso 001, além da óbvia confissão de culpa nos crimes comuns, mostra que a extrema-direita não desistiu da conquista violenta do Poder. A ideia deles é formar um espantalho de governo de exílio para motivar o engajamento de forças internas e externas prontas a intervir na primeira oportunidade. A “carta”, que mostra a afinidade da inteligência artificial com a estupidez natural, o desqualificaria para funções eletivas, não fosse já estar desqualificado há muitos anos, desde sua fantasmagórica entrada pela porta dos fundos, passando por rachadinhas e milicianismo, até às conspirações golpistas e ao balcão de negócios montado no Senado. O espantoso é que tenha podido concorrer à Presidência e aplicar a sucessão de golpes e mentiras que lhe valeram seus votos, o que nos deve levar a refletir o sistema de elegibilidades.

Mais graves serão as tentativas de golpe pelo legislativo, seja com modificações das leis e da Constituição, seja pelo exercício irregular do poder de julgar crimes de responsabilidade. Procurarão absorver o crime de responsabilidade no arbítrio da maioria, delírio que, se bobear, usarão contra os ministros do Supremo e até contra o Presidente da República.

O Legislativo deve ser mantido sob pressão, em primeiro lugar, para aprovar ainda este ano a PEC da Segurança Pública. A exclusão da União no controle e supervisão da área é um dos graves erros da Constituição. A estrutura atual, que coloca o centro da responsabilidade nos Estados, é péssima. Ela fez a conecção do crime organizado com a política, movimento já concluído no Rio de Janeiro e próximo de ser concluído em São Paulo e outros estados. A prova provada é nossas polícias estaduais matarem o dobro de todos os criminosos europeus juntos. Só a União pode resolver o problema da ocupação de territórios por organizações criminosas e a reforma das polícias estaduais para que passem a proteger a vida.

Outro ponto fundamental e que não será atacado a não ser por intensa mobilização popular é a contenção das emendas parlamentares: limitar as emendas orçamentárias em cada esfera do Poder, de modo que o Congresso só possa fazer emendas para aplicação federal, os legislativos estaduais, estadual, e os municipais, municipal — obviamente, com 100% de transparência real, não escondida pelos mil e um artifícios usados atualmente.

A possível reforma eleitoral para o sistema distrital misto pode ser desviada para mudar a forma sem mudar a essência. Dois ponto são essenciais: a existência de democracia partidária efetiva, com regras mais rígidas — hoje um partido político funciona com mais frouxidão que uma sociedade anônima — e a redução dos fundos partidários e eleitoral ao mínimo necessário para garantir paridade nas eleições, evitando abusos econômicos. Retirar as principais fontes de interesse dos corruptos é afastá-los da disputa eleitoral, trazendo a política de volta à busca da justiça social.

A nossa Revolução de Outubro já é um exemplo para a humanidade. Que a levemos às últimas consequências para que se mantenha fiel a si mesma.

Entre os inúmeros ataques que os bolsonaristas fizeram nos últimos dias, foi frequente o deboche do que chamavam “forças do amor”. É preciso que o Amor e sua força mudem a sociedade.

Pedro Costa. Arquiteto e escritor.