metropoles.com

O Judiciário se arrisca a ser julgado pelo tribunal da opinião pública

Acelera a marcha da insensatez

atualizado

Compartilhar notícia

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Imagem de escultura representando a Justiça -- Metrópoles
1 de 1 Imagem de escultura representando a Justiça -- Metrópoles - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

“Cubra-se de glória”, costumava dizer ao autor de um furo ou de uma grande reportagem o jornalista ítalo-brasileiro Mino Carta, criador das revistas Veja, IstoÉ, Carta Capital e Quatro Rodas, além do Jornal da Tarde e do Jornal da República. Mino foi fundamental no processo de modernização da imprensa brasileira.

Ficava implícito no elogio de Mino a advertência de que a glória do jornalista não durava mais do que 24 horas, no caso dos jornais, e menos de sete dias, no caso das revistas semanais. Se tanto. Na era do jornalismo online, a glória por um trabalho bem-feito pode se dissipar em questão de minutos. O esquecimento é mais rápido.

A lição de Mino não se aplica apenas ao jornalismo, mas às demais atividades  de interesse público e dependentes de fé pública. Credibilidade é algo que se leva muito tempo para conquistar, mas que pode se perder num piscar de olhos. O erro admitido e corrigido recupera o fôlego. O erro ignorado apressa a queda.

Credita-se ao Judiciário a travessia bem-sucedida do período mais recente da história política do Brasil. que por pouco não resultou em um golpe de Estado. Desde o fim da ditadura, a democracia nunca esteve tão ameaçada. Mas o crédito concedido corre o risco de se desmanchar devido justamente a ações do mesmo Poder.

A semana que termina foi marcada por episódios que sujaram a toga. Se postos em uma balança, não sei dizer qual deles foi o mais nocivo: se a fala da presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho, Claudia Marcia de Carvalho Soares, ou se duas decisões do Supremo Tribunal Federal.

Claudia reclamou que o juiz de primeiro grau não tem apartamento funcional, nem plano de saúde, nem refeitório com água e café, nem carro, e que paga do próprio bolso o combustível do seu carro particular. Aposentada, Cláudia recebeu em dezembro um salário de R$ 128 mil, acima do teto salarial de R$ 46,3 mil.

“Eu pagava o meu [café] junto com a minha equipe”, contou Cláudia no julgamento da liminar do ministro Flávio Dino, que limita os supersalários no serviço público. O julgamento só será retomado em 25 de março. Montou-se um grupo de trabalho para buscar uma saída negociada entre os Poderes da República.

Diz a Constituição que a Câmara e o Senado, ou ambos em conjunto, podem investigar fato determinado por força da sua função fiscalizadora. Convocados para depor numa CPI são obrigados a comparecer, embora possam permanecer em silêncio para não produzirem provas que os incriminam.

Pois bem: André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” nomeado por Bolsonaro para o Supremo, dispensou dois irmãos do seu colega Dias Toffoli de depor na CPI do Crime Organizado. Mendonça sucedeu a Toffoli como relator do processo que investiga as falcatruas do extinto Banco Master.

Para arrematar a proteção aos Toffoli, o ministro Gilmar Mendes anulou a decisão da CPI do Crime Organizado de quebrar os sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt, ligada à família. E o fez com base em uma ação que Gilmar mandou arquivar há três anos. Faltou declarar à época que o processo fora encerrado.

A insensatez tem dessas coisas. O Judiciário se oferece de graça para ser julgado pelo tribunal da opinião pública. E a ocasião suprema será nas eleições de outubro próximo.

 

Todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?