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Blog do Noblat - 22 anos

Migrações massivas (por José Sarney)

Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas

14/08/2026 10:04
Marcos Moreno/Europa Press via Getty Image
Várias pessoas chegam à Espanha vindas do Marrocos em 30 de julho de 2026, em Ceuta, Espanha

Há cerca de trinta anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia. Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as Grandes Potências, formada por ex-chefes de Estado e de Governo, com apenas quarenta membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México.  Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-Presidente dos Estados Unidos, e Helmut Schmidt, ex-Chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de Chefe de Governo.

Foi justamente Helmut Schmidt, o mais eloquente orador que ouvi entre meus homólogos, quando eu era Presidente, que antecipou, naquela reunião, que duas coisas ameaçavam o futuro da Humanidade, o que, como uma confirmação da marca inequívoca dos grandes oradores, hoje se concretiza: as doenças desconhecidas e as migrações massivas.

Realmente, já enfrentamos a ameaça da Covid-19, com a inexistência de remédios, a luta universal para chegar à descoberta de vacina e o negacionismo de alguns loucos. Mesmo assim chegamos a um final feliz, embora com alguns milhões de mortos no mundo inteiro.

Mas agora assistimos, estarrecidos, ao desespero de oitenta mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros: ocorreram cerca de vinte mortes.

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Esta região, uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem sido, ao longo dos séculos, motivo de muitas guerras. E foi numa delas, na Batalha de Alcácer-Quibir, que desapareceu Dom Sebastião, que veio, segundo a lenda portuguesa, encantar-se na Praia dos Lençóis, na Ilha dos Lençóis, no Maranhão.

Pelo nosso testemunho, presenciamos o início das previsões de Helmut Schmidt. A Europa está vivendo o problema mais agudamente, com a invasão africana dos países outrora colônias europeias, que agora exportam muitos dos seus habitantes para os países desse continente. Isto o mundo viu na última Copa de Futebol nos Estados Unidos, em que a maioria dos jogadores dos times europeus era africana. Até, para surpresa, o goleiro do Japão era de origem africana.

Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas. Eu sempre afirmo que temos uma posição privilegiada de integração e diplomacia em relação a muitos países do Primeiro Mundo, pois já resolvemos questões com que eles ainda lidam com grande dificuldade. Não temos fluxo de migrações massivas e desordenadas de outras regiões, nem ameaça delas; temos uma tradição de convivência pacífica entre religiões, sem os conflitos teocráticos cruéis, que estão na base da maioria das guerras localizadas atuais; não temos litígios territoriais de fronteira que ainda existem na Europa, nos Estados Unidos, onde o Presidente Trump tem a obsessão por construir muros, como ocorre na fronteira com o México, e também a necessidade de ter um exército para combater imigrantes, o ICE, de triste fama, matador de americanos protetores de imigrantes e de imigrantes, inclusive com a morte de um brasileiro, também vítima do ICE.

É que na nossa América Latina temos uma cultura de paz. Somos o Continente mais pacífico da face da Terra. Nossa última guerra foi a do Paraguai — uma guerra que lamentamos por suas perdas, pela violência extrema do desfecho, pelo massacre do povo vizinho e por seu custo social e financeiro — e, depois dela, há quase um século, a do Chaco, que opôs Bolívia e Paraguai em um duro e sangrento conflito fronteiriço.

Para mostrar a nossa vocação de paz, particularmente do Brasil, temos a exigência em nossa Constituição de que a nossa política deve ser sempre de negociação, nunca de violência. Agregamos uma decisão recente, assinada por mim e pelo Presidente Alfonsín, de encerrarmos a corrida nuclear que existia entre o Brasil e a Argentina, baseada na tese dos países comunistas de que quem tiver uma arma nuclear terá um status de grande potência e será por elas respeitado.

O Brasil e a Argentina estavam nesta direção. Foi então que a redemocratização possibilitou o fim dessa corrida, tirando nossos países desse perigo. A divergência que sempre tivemos com a Argentina estava baseada numa tese falsa de que quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul.
Não queremos ser uma potência nuclear, porque seria um suicídio, mas, sim, uma potência econômica, uma potência cultural, uma potência de convivência racial, religiosa e política, influindo mundialmente na paz e pela paz.

Repito, uma vez mais, que com nossa decisão pacifista, minha e de Alfonsín — que me chamou de “estadista da América”, e eu a ele dei o mesmo reconhecimento —, de banir das Nações sul-americanas as armas nucleares, contribuímos para a Paz da Humanidade, que há de lembrar que fomos pioneiros em considerar que, enquanto existir uma única arma nuclear, o mundo não dormirá tranquilo.