
MEMÓRIAS - Quando faltava um código de ética a Sérgio Cabral
Gente: menos rigor com Sérgio Cabral, governador do Rio. Menos!

Somente em 2011 ele teve a feliz ideia de encomendar um código de ética para orientar sua conduta. Não havia código quando ele voou no jatinho de Eike Batista. Nem quando dançou agachado à porta de um hotel em Paris junto com Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta e seu amigo.
A Delta foi beneficiada pelo governo Cabral com obras avaliadas em R$1,49 bilhão. Pasmem: o governo desconhece o número exato de contratos celebrados com ela.
Como Cabral poderia supor que desrespeitava a ética com a viagem a Paris se não dispunha de um código que estabelecesse os limites de ação de um homem público? Sem um código, convenhamos, o que é ético para você pode não ser para mim – e vice e versa.
Digitei “ética” no Google. Sabe quantas páginas me foram oferecidas? Em números redondos, 57 milhões. Digitei “código de ética”. Havia quase 17 milhões de páginas disponíveis.
Quer dizer: trata-se de um assunto complexo, sujeito a interpretações que variam de acordo com o tempo (época) e o espaço (lugar). Antes da confecção do código, Cabral só contava com a própria intuição para guiá-lo.
Digamos que ele tenha lido este trecho do código: “Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado”.
Talvez se perguntasse: “O bom funcionamento social esteve ameaçado nas vezes que viajei com Cavendish ou telefonei para Eike pedindo seu jato emprestado?” Em certa ocasião, o jato ficou uma semana com ele e a família. Foi às Bahamas, voltou a Manaus, foi às Bahamas, voltou ao Rio, foi às Bahamas e voltou ao Rio.
Cabral é inteligente e esperto, mas um tanto descuidado. Não deve ter identificado conflito de interesses em governar um Estado que favorece negócios de Cavendish e de Eike e ao mesmo tempo ser passageiro contumaz do jato de um, e par constante do outro.
Mas depois do código, isso é passado, acredite. O código, por exemplo, exalta a transparência. O Jornal Nacional quis saber como Cabral e a sua turma haviam chegado a Paris há três anos. E quem pagou as despesas. A resposta foi o silêncio envergonhado.
Sabe de uma coisa? Dever de casa para Cabral até o fim do seu mandato: ler todo dia uma página do código, recomeçando depois que acabar de ler a última.
(Artigo aqui publicado em 30/4/2012)
Atualização em 7/4/2022 – Cabral segue preso depois de condenado a penas que, somadas, dão mais de 100 anos de cadeia. É o último preso da Lava-Jato. Seu sucessor no cargo de governador do Rio também foi preso. O seguinte teve o mandato cassado por corrupção. O atual, Carlos de Castro, passou a usar o helicóptero oficial do governo para viajar com a família e comparecer a festas de aniversário de aliados políticos. Nunca mais se falou do Código de Ética encomendado por Cabral.
