
Mudança de clima na economia (por Felipe Sampaio)
Brasil defende a cooperação internacional. Estudo do governo lembra que o mundo inteiro sofre o caos climático desenfreado

O presidente Lula acertou na mosca ao propor na COP30 um mapa para a transição energética. A coisa avançou. Há alguns dias, o Ministério do Meio Ambiente apresentou na Alemanha uma prévia do ‘Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis’. Em 2025, o governo já havia produzido o provocativo ‘Estudo Estratégico dos Impactos Econômicos da Mudança do Clima no Brasil’. Confirmava que aquecimento global é um abacaxi que só se descasca a 16 bilhões de mãos. Para isso, o sapiens ainda precisa de um fórum multilateral de governança e execução.
A mudança do clima atinge em cheio a economia global que a gerou. Conhecer seus impactos macroeconômicos é incontornável para orientar estratégias dos países e dos mercados. Para o Brasil, o Estudo do governo deixa claro que não basta mais adotar medidas internas de prevenção e mitigação: “A mudança [global] do clima trará impactos sobre a economia brasileira, ampliando desigualdades e deteriorando a segurança socioeconômica, alimentar e hídrica”. Já dizia o ex-ministro Raul Jungmann, nenhum país resolverá o problema sozinho, tampouco escapará dele. É ignorância (ou má fé) zombar da diplomacia.
Não é à toa que o Brasil defende a cooperação internacional. O Estudo começa lembrando que o mundo inteiro sofre o caos climático desenfreado, e compara os impactos da omissão climática mundo afora com os efeitos de uma ação climática positiva dos países emissores, nos casos de aquecimento de 1,5°C, 2,5°C e 4°C acima da temperatura pré-industrial. Se o mundo cravar 2,5°C (até o final do século), o ponto de não-retorno cristaliza um status devastador de “Terra Estufa”. Já passamos de 1,5°C.
Verdade seja dita, os impactos econômicos para 4°C ainda são chutes subestimados. Afinal, nem se sabe se haveria vida terrestre nesse patamar. A estimativa conservadora para o PIB brasileiro é de uma perda de R$17,1 trilhões até 2050, para 4°C em relação ao cenário de 1,5°C, enquanto o nível de empregos cairia cerca de 4 milhões de postos de trabalho criados. A “falta de ambição climática dos países desenvolvidos” ampliará a desigualdade entre as regiões do Brasil. Centro-Oeste, Norte e Nordeste seriam mais afetados. Aumentaria a migração para grandes cidades, sobretudo para o Sudeste.
Entre as atividades setoriais nacionais, a indústria extrativa (petróleo, gás, carvão e minérios) seria a única beneficiada, obtendo o melhor retorno econômico no cenário comparado entre 4°C e 1,5°C. Os demais setores sofreriam custos da inação climática de -0,14% (agropecuária) a -8,18% (eletricidade, água, gestão de resíduos). Quanto aos preços relativos dos alimentos no Brasil, o Estudo projeta no cenário 4°C um aumento de 3,8% até 2050, notadamente no Centro-Oeste, afetando a segurança alimentar doméstica e internacional. O Norte e o Nordeste também são afetados. O Sul seria beneficiado no cenário 4°C, devido à maior disponibilidade hídrica.
Por outro lado, o Estudo mostra que uma ação climática global compatível com o objetivo do Acordo de Paris (cenário 1,5°C) favoreceria o Brasil: um aumento no PIB de R$ 6,7 trilhões até 2050, somado a uma redução da desigualdade regional no país. O Norte, Nordeste e Centro-Oeste teriam crescimento acima da média nacional. Seriam gerados 1 milhão de empregos adicionais no Brasil até 2050 nas mesmas regiões. Haveria também uma queda nos preços relativos dos alimentos de 0,64% no país no mesmo período. Tudo isso, vale lembrar, depende do diálogo internacional responsável.
Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; chefiou a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.
