Lulinha, o investigado em potencial, diz estar limpinho da silva
Quanto a Alexandre de Moraes, seus colegas o protegem
atualizado
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Li, hoje, no principal editorial da Folha de S. Paulo, que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, biólogo e empresário do setor de tecnologia e jogos, é um “investigado em potencial”. Está dito no último parágrafo:
“Os escândalos no campo político são sempre perigosos para o ocupante do Palácio do Planalto —e Lula tem um filho na condição de investigado em potencial. Enquanto isso, o bolsonarismo celebra as suspeitas que se acumulam no caso Banco Master contra seu maior algoz, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal”.
“Investigado em potencial” é um termo utilizado para descrever alguém que, embora ainda não tenha sido formalmente indiciado ou incluído como investigado oficial em um inquérito, possui contra si indícios, suspeitas ou citações em procedimentos que indicam uma alta probabilidade de se tornar alvo principal de uma investigação.
Se correta a definição, o ministro Moraes seria também um investigado em potencial. Embora ainda não tenha sido formalmente investigado ou indiciado em um inquérito, ele possui contra si indícios e suspeitas de que possa ter-se beneficiado de sua proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Enquanto o investigado já teve seu nome incluído em inquérito ou procedimento do Ministério Público, o investigado em potencial é um estágio preliminar, muitas vezes baseado em menções, depoimentos de terceiros ou provas indiretas. Pessoas nessa situação podem sofrer medidas cautelares para que não interfiram nas investigações.
A mulher de Moraes, advogada, prestou serviços a empresas do grupo Master. Não transgrediu nenhuma lei por causa disso. Mas não deveria tê-lo feito por ser mulher de um magistrado que poderia vir a julgar o caso de um dos seus clientes. No dia em que foi preso pela primeira vez, Vorcaro trocou mensagens com Moraes. O ministro nega.
Antes disso, Moraes e Vorcaro se encontraram uma dezena de vezes e se falaram pelo telefone. É o que está na memória de um dos celulares de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal. Os outros celulares ainda não começaram a falar. Um ministro do Supremo só pode ser investigado mediante a autorização dos seus pares. Nunca aconteceu.
Lulinha foi citado por um depoente da CPMI do INSS como tendo recebido “mesadas” de R$ 300 mil do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes (Careca do INSS). A CPI quebrou os sigilos bancário e fiscal de Lulinha. O ministro Flávio Dino, do Supremo, os restabeleceu. Vazou da CPI um documento sobre a vida financeira de Lulinha.
O documento indica que Lulinha movimentou cerca de R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026, envolvendo créditos e débitos em contas pessoais no Banco do Brasil. E que nesse mesmo período, Lula doou ao filho R$ 721 mil. Tudo declarado por pai e filho em suas declarações de Imposto de Renda. E daí? Não pode?
Sou do tempo que era crime divulgar informações financeiras de pessoas sob a guarda do Estado. Pelo visto, deixou de ser. O jornalista Elio Gaspari, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 25 de janeiro de 2004, contou a seguinte história:
“Em agosto de 1991, o repórter Kaíke Nanni convenceu um jovem procurador a passar-lhe uma parte da documentação de um processo que estava em suas mãos: as declarações de renda de Paulo César Farias, o tesoureiro do então presidente Fernando Collor de Mello. […] O promotor permitiu que Kaíke copiasse 214 folhas com cinco declarações de renda de PC Farias. O repórter assumiu o compromisso de não revelar seu nome.
Do cartapácio, resultava que Farias era um veterano sonegador. Quando o material chegou à redação [da VEJA], em São Paulo, a direção da revista foi alertada de que a publicação dos documentos era crime. Buscou-se uma saída e ela foi sugerida pelo jurista Francisco Rezek, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. Tratava-se de criar um “fato legislativo”.
Traduzindo: se um parlamentar tivesse uma cópia das declarações e as anexasse a um requerimento qualquer, elas estariam lavadas. Faltava achar o deputado. José Dirceu [do PT] aceitou representar o papel. Ele foi à redação de Veja e, nas palavras de [Mário Sérgio] Conti, [diretor da revista à época], ‘combinamos que escreveríamos na Carta ao Leitor que as declarações de renda de PC foram encaminhadas anonimamente ao deputado e ele sustentaria a mesma versão. Assim foi feito’”.
O acesso da VEJA às declarações de Imposto de Renda de PC Farias foi um dos marcos da investigação que culminou no processo de impeachment de Fernando Collor em setembro de 1992.
Lulinha jura que está limpinho da silva, e já ofereceu a quebra dos seus sigilos bancário, fiscal e telemático. Diz que nada tem a esconder. É o que seu pai espera.


