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A ampla avenida da transição energética (por Marcos Magalhães)

Em vários países do Ocidente parece haver um recuo diante das metas iniciais da transição energética. E o Brasil com isso?

16/06/2026 10:02
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Reprodução chelsea/ Unsplash
Fotografia colorida de um telão de energia | Energy Summit

“Deixem o petróleo fluir”, escreveu Donald Trump em suas redes sociais, ao celebrar o provisório acordo de paz com o Irã. O antigo flerte do presidente americano com os hidrocarbonetos agora se espalha pelo Ocidente. A transição energética tem uma campeã: a China. E o Brasil tem uma avenida pela frente.

O acordo com o Irã ainda vai ser assinado, na Suíça. Ainda é provisório, à espera de mais dois meses de negociações sobre o programa nuclear do Irã. Mas a simples notícia do entendimento já animou bolsas de valores e reduziu os preços do petróleo.

Os índices de inflação agradecem – inclusive aqui no Brasil. Um acordo de paz é sempre um acordo de paz. Uma indicação de estabilidade em um mundo cada vez mais instável. O petróleo voltará a fluir, como deseja Trump. “Business as usual”, como dizem ingleses e americanos. Tudo como antes.

O alívio econômico é imediato. Mas ele também pode ter seu preço. O petróleo mais barato enche de energia todos os que pedem mais tempo para a transição energética. E torna mais escorregadio o caminho dos que alertam para os riscos globais de uma mudança climática.

Os gases do efeito estufa emitidos pela queima dos derivados de petróleo parecem cada vez mais invisíveis aos agentes políticos. Trump é transparente nesse sentido. Embora mais discretos, outros líderes seguem o mesmo caminho.

O título da mais recente edição da revista Foreign Policy, que acaba de ser publicada, é: “O Fim do mundo como o conhecemos”. Um dos 10 artigos – “O fim da política do clima” – indica essa tendência.

Mesmo quando se tornou evidente que a contenção da mudança climática exigiria uma grande mudança, alerta em seu artigo a professora Leah Aronowsky, da Universidade de Columbia, o Ocidente insistiu em que o problema poderia ser resolvido sem ameaçar a ordem econômica global.

“Mesmo quando a mudança climática foi apontada como emergência existencial”, observa Leah, ela foi tratada com mecanismos políticos que eram necessariamente lentos, deliberativos e sujeitos a mudanças nos ventos políticos”.

O resultado? Como indica a autora, que recebeu doutorado em História da Ciência pela Universidade de Harvard, enquanto o Ocidente debatia o futuro da energia verde, a China estava justamente construindo esse futuro.

Em 2024, exemplifica Leah Aronowsky, os painéis solares e as baterias fabricados na China responderam por 80% do mercado mundial. E o país respondeu também por 60% do acréscimo de energia eólica no planeta.

“A transição verde está acontecendo”, anota a professora. “Mas não nos termos ocidentais, sob liderança ocidental ou por razões ocidentais”.

E o Brasil com isso? Poucos países do mundo têm o mesmo potencial para navegar na transição energética. É verdade que não parece disposto a abrir mão de oportunidades de produção de petróleo, como na Margem Equatorial. Apesar dos riscos à preservação de manguezais na costa do Amapá.

Se ainda aposta no petróleo, porém, o atual governo brasileiro parece disposto a abraçar a transição energética. As fazendas solares e eólicas espalhadas pelo Nordeste indicam o caminho a seguir.

Em vários países do Ocidente, parece haver um recuo diante das metas iniciais dessa transição. Aqui mesmo, no Brasil, forças políticas mais identificadas com o projeto de Donald Trump indicam pouco afeto pelas fontes renováveis.

Pois a confluência entre política e meio ambiente está perto de contagiar a campanha eleitoral deste ano. Quem deu o tom, igualmente pelas redes sociais, foi o ex-ministro Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo.

“O Brasil tem um programa de transição ecológica que é reconhecido no mundo inteiro”, disse Haddad, ao ressaltar ter sido incluído, pela revista Time, no time das 100 pessoas mais influentes do mundo no tema.

“O Brasil é campeão de energia hidrelétrica, campeão de energia limpa eólica e solar, é campeão em biocombustíveis e tem um motor híbrido flex único no mundo”, completou.

As eleições de outubro dirão se as prioridades continuarão as mesmas. O Brasil pode manter uma porta aberta à exploração responsável do petróleo. Mas também deve explorar a larga avenida de oportunidades da transição energética.