Bolsonarista que espionava Lewandowski é vexame para o STF

País que tem ministro da Economia com conta em paraíso fiscal por que não teria espiã em gabinete da mais alta corte da Justiça?

atualizado 07/10/2021 8:50

Allan dos Santos veste traje social e sorri Hugo Barreto/Metrópoles

Não admira que uma bolsonarista, estagiária no gabinete do ministro Ricardo Lewandowski, tenha se tornado informante do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que fugiu do Brasil por estar sendo investigado pelo ministro Alexandre de Morais e com medo de ser preso a qualquer momento.

Admira, sim, que o Supremo Tribunal Federal seja tão vulnerável a ações como essa. Entre 19 de julho de 2017 e 20 de janeiro de 2019, Tatiana Garcia Bressan, 45 anos, dentista e estudante de direito, xeretou tudo o que se passava no gabinete de Lewandowski e contou a Allan o que mais chamou a sua atenção.

Ganhava por mês R$ 1.207. Era considerada uma estagiária exemplar, chegando para o trabalho na hora marcada e saindo muito depois do expediente. Sabia-se que era bolsonarista, mas e daí? Ninguém é proibido de ser. Aconselhada, criou um novo endereço nas redes sociais e continuou a postar o que queria.

Queria porque queria um emprego no gabinete da deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF). Fora aluna dos cursos do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, guru da primeira família presidencial brasileira, assim como Allan também foi, e isso a credenciava. Os dois acabaram se conhecendo na internet.

Allan é investigado em dois inquéritos no Supremo – um para apurar disseminação de fake news e outro para identificar quem financia essas ações e os atos bolsonaristas antidemocráticos. As conversas entre os dois começaram em 23 de outubro de 2018 e foram até 31 de março do ano passado.

Logo na primeira, Allan orientou-a: “Fique [aí] como nossa informante”. Ao que Tatiana respondeu, encantada e feliz: “Será uma honra. Estou lá kkk”. E acrescentou, provocada por Allan:

“O que vi de mais espantoso [por aqui] é que realmente eles decidem o que querem e como querem. Algumas decisões são modificadas porque alguém importante liga pro ministro”.

Então revelou que Lewandowski, por exemplo, havia atendido a uma ligação do general Eduardo Villas Boas, na época comandante do Exército, mas até aí nada demais. O ministro diz que não se nega a atender ligações de autoridades, porque é de praxe. Tatiana disse a Allan que Lewandowski soltaria Lula.

Errou. Foi uma decisão do ministro Edson Fachin soltar Lula. Lewandowski limitou-se a referendá-la, assim como os ministros Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Villas Boas foi contra a decisão, mas como ele não é ministro do Supremo, não votou. Tatiana e Allan, agora, irão depor à Polícia Federal.