A derrota memorável de Lula a 157 dias das eleições no primeiro turno
Crônica de uma recusa anunciada
atualizado
Compartilhar notícia

Meia hora antes do fim da sessão do Senado que rejeitou a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal, falei por telefone com um dos mais fiéis aliados de Lula, que a tudo acompanhava de perto no plenário do Senado.
Perguntei: “E aí? Vai dar no quê?” Resposta: “Messias será aprovado por 56 ou 57 votos”. Retruquei: “Tudo isso?” O aliado consultou suas anotações e disse: “Perdão, falei errado. Serão 46 ou 47 votos”. Insisti: “Posso cravar?”. “Pode sim”, respondeu.
Escrevi no X, ex-Twitter: “Meu palpite, só palpite neste momento: a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal será aprovada pelo Senado, com algo como 45/46 votos. A ver. A ver. A ver.” Não foi o que veríamos dali a pouco.
A Messias, quando ele os procurou em campanha para ocupar a vaga do ministro Luís Roberto Barroso, aposentado em outubro do ano passado, 36 senadores garantiram seus votos. Com mais cinco, a aprovação estaria assegurada. Dos 36, dois o traíram.
Somente David Alcolumbre (União-Brasil), presidente do Senado, estava certo em suas contas. A Jaques Wagner, líder do PT, Alcolumbre antecipou ao encerrar a votação: “Acho que ele vai perder por 8”. Placar final: 34 votos a favor de Messias, 42 contra.
Ouvidos pelo Globo, quatro senadores contaram que Alcolumbre entrou em contato com parlamentares de centro, oposição e indecisos ao longo do dia, pedindo votos para derrotar Messias e os estimulando a convencer outros colegas a procederem assim.
Nada de pessoal contra Messias, disse Alcolumbre. Acontece que seu candidato à vaga de Barroso sempre foi o senador Rodrigo Pacheco, que o antecedeu no cargo de presidente do Senado. Com Pacheco no tribunal, o Senado estaria mais bem servido.
“O Senado deu um recado claro de que não vai aceitar a interferência de outros poderes, independente da pessoa que teve seu nome rejeitado”, celebrou Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, aclamado por seus pares.
A extrema-direita e o Centrão, aglomerado de partidos da direita, juntaram-se para impor uma derrota histórica a Lula. A eles também se somaram com o mesmo objetivo alguns ministros do Supremo. Há 132 anos que o Senado não rejeitava uma indicação.
Hoje, o governo deverá colher outra derrota: a derrubada do veto de Lula ao projeto de lei que diminuiu a pena dos golpistas do 8/1, inclusive a de Bolsonaro e dos militares condenados. Flávio promete anistiá-los de vez caso se eleja presidente em outubro.
É cedo para se especular sobre o impacto nas próximas eleições da recusa ao nome de Messias. Os que hoje comemoram votarão na direita, em Flávio ou em qualquer outro candidato. Os que lamentam não deixarão de votar em Lula. Jogo jogado, por ora.
Outra vez serão os eleitores “nem nem”, nem esquerda, nem direita, que decidirão a parada, e mais os que se abstiverem de votar. O maior desafio de Lula é recuperar parte da popularidade perdida e chegar em agosto na frente dos adversários. A ver. A ver.


