O abraço de náufragos entre Aécio e Ciro
Aécio joga a bomba e Ciro faz o charme: o teatro dos tucanos para não serem esquecidos
atualizado
Compartilhar notícia

O PSDB, aquele partido que um dia voou alto e hoje mal consegue planar sobre o ninho, resolveu produzir um factoide para tentar sair da UTI política. Aécio Neves, o tucano que perdeu as asas após o embate com Dilma em 2014, sacou da cartola um convite inusitado: convocou Ciro Gomes para ser o candidato do partido à Presidência da República pela quinta vez. É o abraço de dois náufragos tentando encontrar terra firme em um mar de polarização.
Ciro recebeu a “honra” com aquele sorriso de quem adora ser cortejado. Atualmente focado em retomar o governo do Ceará – onde já montou alianças, inclusive com o bolsonarismo local -, o ex-ministro não descartou a ideia de imediato. Mas não se engane: o que move Ciro agora é mais o fígado do que o juízo político. Ele não perdoa Lula e culpa o petista por seus fracassos presidenciais, guardando uma mágoa que nem o tempo, nem as viagens a Paris, conseguiram curar.
A movimentação de Aécio Neves é puro jogo de cena. Como presidente de um PSDB nanico, ele precisa criar ruído para não ser esquecido pelas câmeras. Enquanto joga a “bomba” no colo de Ciro nacionalmente, Aécio cuida do próprio quintal em Minas Gerais, onde flerta com Rodrigo Pacheco sob as bênçãos de Lula. O PSDB, que já foi o grande contraponto ao PT, hoje se contenta em ser o coadjuvante que oferece abrigo a corações feridos.
Ciro é temperamental. Já caiu nas pesquisas por chamar eleitor de burro e por piadas infelizes que o eleitorado não perdoou. Se cair na tentação da quinta candidatura, virá novamente pela direita. O convite de Aécio é um afago no “sofrido coração” de Ciro, mas dificilmente será o combustível para uma vitória que ele persegue, sem sucesso, há décadas.
No fim das contas, Ciro deve preferir o realismo do Ceará ao sonho impossível do Planalto. Mas, para quem vive de política e de ego, o convite de Aécio serviu, ao menos, para que ambos voltassem a ser notícia.


