No aeroporto com Wolff

O personagem encontra o economista durante a greve da Aerolíneas Argentinas

atualizado

Compartilhar notícia

Aeroporto Internacional de Guarulhos
Aeroporto Internacional de Guarulhos
1 de 1 Aeroporto Internacional de Guarulhos - Foto: Aeroporto Internacional de Guarulhos

Mauro sentou no primeiro assento vazio no aeroporto e bufou. Ligou para a namorada: “Oi, amor, não vou mais viajar, esqueci da greve geral na Argentina, cancelaram o voo”. Sabia que a greve era justa, o que Milei fazia era um desastre. Com a desculpa de modernizar as relações de trabalho, fracionou as férias para sete dias, aumentou a jornada para até 12 horas diárias, regularizou o banco de horas ao invés do pagamento de horas extras. Era a favor da greve, claro, mas tinha que ser hoje?

Quando foi a última greve geral no Brasil? Fez essa pergunta e a IA do Google, que está derrubando o acesso dos sites em todo mundo, respondeu que foi em 14 de junho de 2019.. Foi um protesto contra a reforma da Previdência e os cortes na Educação no governo Jair Bolsonaro.

O movimento balançou 189 cidades em todos os estados, organizado pelas principais centrais sindicais. Metalúrgicos, professores, servidores públicos e bancários abraçaram a causa. Mauro esteve na manifestação na Paulista, carregou durante parte do trajeto uma  grande faixa escrita “Fora Bolsonaro”, mas não lembrava de uma greve geral. Certamente trabalhou naquele dia.

Um homem sentou ao seu lado e disse ao telefone em inglês, “Os voos da Aerolíneas Argentinas foram cancelados, se não conseguirem um outro voo terei que cancelar a palestra…sim…sim…O que Milei está fazendo é o que acostumamos a ver, o mercado dominando o governo, o parlamento e que se danem os trabalhadores”.

Mauro esperou a ligação terminar para continuar o assunto, já que o homem, lá pela casa dos 60 anos, tinha ar professoral de universidade americana, que todo mundo no Sul Global paga pau, Mauro também muitas vezes, apesar do discurso decolonial.

“Oi, tudo bem? Também perdeu o voo por causa da greve, quer dizer, por causa do Milie?”, ”Milei é um clone de Milton Friedman que tenta cortar programas sociais. Os trabalhadores aderem à greve geral para reagir. Os argentinos, frustrados, elegeram um “libertário maluco” que promete ganhos econômicos  e evita contabilizar os custos sociais e a pobreza”.

Mauro concordou. “Queria saber como essa proposta medonha passou no Senado, sendo que o Liberdade Avança não tem maioria em nenhuma casa. É aquela velha história do mercado dominando a democracia?”, “Sem dúvida, os ricos sempre entenderam que nas eleições corre-se o risco de uma maioria pobre votar para acabar com a desigualdade. Os ricos buscam controlar a democracia para impedir que a maioria dos empregados vença a minoria dos empregadores”.

“Então no limite, não existe democracia no capitalismo. O senhor não está exagerando?” O homem pensou um pouco e respondeu pausadamente: “ Os fãs do capitalismo gostam de dizer que ele é democrático. Não importa quantas vezes isso seja repetido, simplesmente não é verdade e nunca foi. De fato, é mais preciso dizer que capitalismo e democracia são opostos. É um sistema onde algumas pessoas são os chefes e a maioria das pessoas simplesmente obedece. Esse relacionamento não é democrático, é autocrático”.

“Nunca tinha pensado dessa maneira”, respondeu Mauro, sentindo um nó na garganta que era do seu inconsciente, lembrando dos constrangimentos que sofreu em diferentes trabalhos. O homem, que vestia um terno azul escuro e um sapato marrom, continuou: “Quando você entra em seu local de trabalho, você deixa para trás qualquer democracia que possa existir fora dele. Os empregados estão tomando as decisões que afetam suas vidas? A resposta é não. Os empregados são excluídos das decisões, mas devem viver com as consequências das decisões de seus chefes. O empregador é como um rei em uma monarquia. Em vez de reis, são chamados de proprietários ou CEOs”

Duas crianças brincavam de esgrima com coroas de papelão do Burger King nas cabeças. Eles se entreolharam e riram.

 

*Trecho de postagem no twitter de Richard Wolff em 12 de maio de 2024

* Trecho de texto publicado no LA Progressive em 3 de agosto de 2024

Richard Wolff é um economista estadunidense, autor de “Democracia no Trabalho”, sem tradução para o português

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?