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Flávio foi para o bar beber. Flávio fugiu, fugiu da despedida de Camilo, amigo que se mudava para Santa Catarina. A reunião exalava desejos de boa sorte, saudades antecipadas e visitas futuras que jamais seriam fotografadas. Mas Flávio fugiu.
Flávio era amigo de infância de Camilo, mesmo bairro, colégios e amigos. Continuaram se encontrando durante os anos, seguiram recontando as histórias do passado e narrando as vivências do presente, cultivando reciprocidades. Havia um sentimento genuíno que nem o abismo ideológico conseguiu destruir. Aprenderam a ignorar a política e os papos prendiam-se às experiências pessoais e pequenas confissões. Foi um aprendizado longo, ameaçado a cada eleição presidencial. Não se falaram quando Lula foi eleito e reeleito e quando Bolsonaro venceu o pleito. Afastaram-se durante o impeachment da Dilma. A única eleição com boteco entre os dois foi a última. Camilo era um antipetista ferrenho, mas não suportava mais Jair.
Se as coisas estavam resolvidas entre eles, a família de Camilo nada tinha com isso. Todos advogados ou comerciantes, achavam que tinham o direito de fuzilar Flávio porque ele se formou em História. Há décadas Flávio suportava as mesmas piadas cretinas de quem despreza professores porque o salário no geral é uma merda. Mal sabiam que dava pra viver bem dando aula em duas escolas de elite.
Flávio conversava com Camilo e três tios dele. O papo fluía entre futebol, BBB e nostalgias. Até que a conversa aterrissou no racismo. Um tio mais velho decretou: “Antes não tinha essa história, todo mundo era amigo, negão era negão e não tinha isso de racismo”. Todos concordaram. “O Brasil vivia em paz. Eu sempre tive amigos negros, a gente fazia piada e não tinha problema”, disse outro tio. “Agora é isso, direito pra gays, negros, índios, o país não vai pra frente por isso”.
Flávio olhava. Todos eram brancos na festa. Convivia com aquela família há décadas e nunca vira um homem ou mulher negra ou preta entrar naquela casa como convidado – só trabalhando. Desde que começou a namorar Alice, desde que começou a ouvir e a aprender com Alice, as pautas feministas e raciais passaram de um tema importante para o sangue que corre nas veias. Foi crescendo uma raiva no peito de Flávio, ele queria falar mas as ideias embaralhavam, sabia que perderia a razão, gritaria e se envergonharia depois. Disse que iria ao banheiro. Fugiu pro bar.
Pegou um Uber direto pra um boteco perto de casa. Sentou no balcão, pediu uma Heineken porque esqueceu da sua crítica ao status social inventado e ao preço bem mais caro da cerveja. Tomou meia garrafa sem respirar. Olhou pro bar e viu em uma mesa o historiador Luiz Antonio Simas. Teve vontade de conversar mas desistiu. Mas quando o Simas parou do seu lado pra pedir mais uma, tomou coragem e perguntou: “Mano, como alguém ainda pode falar em democracia racial até hoje?”, “Por quê?”, Flávio resumiu a conversa na festa.
Então Simas disse: “O mito da democracia racial foram tentativas de pensar um Brasil consensual, que fundamentalmente privilegiava uma certa herança branca. O que há agora é que, depois de um certo momento, isso se esgarça e nem esse projeto se sustenta mais. Veja bem, o branqueamento foi um projeto de Estado e o projeto de uma geração de intelectuais. Esse branqueamento não dá certo e aí você cai no campo da mestiçagem cordial, uma inclusão subalterna: incluir o negro e o indígena dentro do processo de formação nacional, mas subalternizados pela ideia de que o branco era superior. E isso está aí, nessa guerra que está sendo jogada. O Brasil é isso: uma rinha. E acho que essa rinha continua, hoje, muito aflorada”.
Flávio disse que teve vontade de xingar, mas sabia que não iria funcionar, “O que fazer?”, perguntou. Simas: “O que fazer? Eu poderia responder com aquela sinceridade absoluta dizendo que não tenho a menor ideia. Mas acho que é necessário a gente saber que é um jogo. E algumas vezes a lógica do jogo é a gente não ser aniquilado em um certo momento. Se a gente imaginar que isso aqui é uma espécie de jogo de capoeira, é preciso reconhecer que, da mesma forma que o ataque é fundamental, também é fundamental a arte da esquiva, a arte da ginga, a arte do drible. É fundamental construir formas de vida que permitam que a brasilidade consiga sobreviver”**
Simas iria continuar quando Flávio viu Alice passar na rua. Correu para chamá-la e nem percebeu, deixou Simas falando sozinho.
* Trecho de entrevista à revista Continente (Agosto de 2022)
**Trecho de entrevista à coluna de Chico Alves no uol (04/07/2021)


