Carnaval com Yuval

Gérson decidiu processar o Instagram e o TikTok. Ao deixar o escritório dos advogados, encontrou um bloco.

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TikTok e Instagram
1 de 1 TikTok e Instagram - Foto: Reprodução

“Quero processar o Instagram e o TikTok. Eles viciaram meu filho, estão acabando com a vida dele”, disse Gérson ao advogado que um primo indicou. Havia treinado um tom assertivo, mas ao entrar no escritório elegante e moderno, ficou nervoso e soou desesperado. “Isso é muito complexo e demandará uma fortuna, com possíveis resultados desfavoráveis”, respondeu seco e incrédulo o jovem advogado.

“Mas isso está ocorrendo esta semana, em um tribunal em Los Angeles. É o caso de uma mulher de 20 anos, que sofreu danos mentais pela dependência de redes sociais que desenvolveu quando era criança. Podemos usar a mesma estratégia dos advogados, que estão comparando as redes sociais com o vício do cigarro. Todo mundo sabe que as redes sociais fazem mal, não é?”. “Só um segundo”, disse o jovem advogado, que escreveu no grupo dos estagiários: “Tem um maluco querendo processar a Meta e o TikTok, alguém pode me ajudar a sair daqui?”

O aspirante a doutor decidiu ser educado – seu inconsciente sussurrava uma leve emoção de ver um pai preocupado com o filho, bem diferente da relação com seu progenitor. “Desculpe. Entendo perfeitamente seu caso. Qual a idade do seu filho?”, “18 anos”, “Ele já foi diagnosticado?”, “Sim, tem TDHA e desenvolveu depressão”, “É possível associar as redes sociais com sua situação?”, “Há alguns estudos sobre isso, as escolas estão afastando os celulares das salas e o precedente deste caso nos EUA, será uma vitória de todos nós”

A porta da sala se abriu. Uma jovem advogada pediu licença e chamou seu colega para uma reunião urgente. O jovem advogado se levantou, pediu desculpas e disse que discutiria o caso com seus colegas. Entraria em contato em uma semana.

No elevador, Gerson foi tomado por um terremoto de vergonha, O que estava fazendo ali, falando com aquele moleque? Ele era o culpado, queria culpar as empresas para se livrar de seus erros e ausências. Não, já havia pensado e repensado, tinha culpa, mas o que essas empresas fazem era uma ameaça geracional, elas devem pagar pelo que fizeram não só a seu filho, mas a todas crianças e jovens.

Saiu do prédio no centro do Rio e reclamou com o segurança: “putaquepariu, bloco de carnaval na quinta-feira do pré? Quer saber?” Largou mão da vida e deixou o corpo seguir o cortejo. Riu pela primeira vez na semana ao ver um cara, baixinho e careca, vestido de homem das cavernas, lendo uma edição gigante de Sapiens, livro do Yuval Harari. Foi puxar papo com ele.

“E aí meu amigo, pra onde vai a humanidade?”, “Olha, a inteligência artificial é mais poderosa e inteligente do que nós. E se escapar de nosso controle, as consequências podem ser catastróficas*”, respondeu com sotaque. Surpreso, Gérson, respondeu, “Tu é gringo porra”, “Sim, sou. Você precisa ler Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência Artificial. Recomendo, é um ótimo livro de um excelente escritor”, “Fala de redes sociais, né?”, “O que você acha?” respondeu impaciente e se dirigiu até o isopor. “Quer uma cerveja? Você é daqui do Rio?”, “Quero sim. Sou, nascido e criado em Copacabana”

Abriram as cervejas e brindaram. ‘Ao Carnaval!”. “E o que esse livro fala das redes sociais?” “No TikTok e no Facebook, é um algoritmo que decide quais mensagens receberão mais atenção. E isso molda a opinião pública, a cultura humana.  Começamos a ver, e isso só vai aumentar, como as decisões dos algoritmos moldam a política, a cultura e a sociedade. Os algoritmos usam o ódio para atrair mais atenção” , “Então elas deveriam ser responsabilizadas?”, “ Se o editor do The New York Times decide colocar uma teoria da conspiração na capa, isso é um grande problema e ele deve ser responsabilizado por isso. E acredito que o mesmo se aplicaria se o algoritmo do Instagram ou do TikTok decidisse impulsionar e promover notícias falsas: sim, as empresas deveriam ser responsabilizadas. Elas dizem que são neutras, mas claramente não são”.

De repente passou um folião com o rosto pintado e a camisa cheia de logos do Instagram. Gérson e o homem das cavernas se entreolharam. “Vamos conversar com ele?”, disse o gringo, “Deixa eu falar com esse idiota”, disse Gérson. “Holy shit! Larga esse pedaço de madeira for God sake!!”

 

*Trechos de entrevista de Yuval Noah Harari ao Infobae em 22-09-24

 

 

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