Bolsonaro: Entre o prontuário e o palanque
Enquanto o país aguarda boletins médicos, o clã Bolsonaro mobiliza a fé e o voto, transformando o leito de hospital no primeiro palanque.
atualizado
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O anúncio de um “risco potencialmente mortal” para Jair Bolsonaro nos obriga a parar e refletir sobre como a saúde de um ex-presidente se entrelaça de forma quase indissociável em nossa história.
Diante da gravidade de um leito de hospital, o silêncio costuma ser a primeira reação, mas logo ele dá lugar à percepção de como a política se acomoda nessas horas.
É importante observar as chamadas coincidências: Sempre que o cerco da Justiça aperta ou que a popularidade começa a dar sinais de fadiga, o botão do mártir fica disponível.
Aproveita-se então para usar o estado vulnerável como um ativo político. O hospital deixa de ser um lugar de cura para virar, no caso de Bolsonaro, o novo “cercadinho”, onde o contexto serve como uma das ferramentas de oratória mais poderosas do campo político.
Não dá para deixar de notar a tentativa deliberada de reeditar, em doses homeopáticas, aquele clima de comoção de 2018.
Bolsonaro é um político que só sabe governar e existir no conflito. Quando o corpo reclama o preço desse estresse permanente, o recolhimento não é uma opção e a plateia atenta vira um diamante a ser lapidado.
É a política em suspense: enquanto os médicos dão coletivas dramáticas, as investigações e as críticas ficam em segundo plano sob o manto de uma trégua humanitária que, convenhamos, ele nunca ofereceu a ninguém.
Para quem vive de crises fabricadas, um risco real de saúde é uma oportunidade única, para além de uma prisão domiciliar. E o objetivo é claro: convencer o eleitor de que o inimigo não quer apenas derrotá-lo nas urnas, mas eliminá-lo fisicamente.
O que se pode fazer é aguardar. Ou realizar o pedido do filho Flávio, candidato à Presidência para 2026: orar e jejuar.


