Tarifa americana – socorro no Brics (por Roberto Caminha Filho)

O país que inventou o fast food também inventou o cruel “fast protectionism”

atualizado

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Anna Moneymaker/Getty Images
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1 de 1 donald trump air force one - Foto: Anna Moneymaker/Getty Images

As aulas americanas acabaram, quem diria: os Estados Unidos, país do “livre mercado”, resolveram cobrar impostos sobre o aço e o alumínio brasileiros. Isso mesmo, o Tio Sam, que sempre pregou o comércio livre, agora resolveu cobrar pedágio de quem passa perto dos seus portos e aeroportos, com a sua voraz alfândega. Chamam isso de “medida arancelária”, que é um nome chique para dizer: “ dinheiro na frente, se quiser vender aqui, pague um extra ”.

Pois é. O país que inventou o fast food também inventou o cruel “fast protectionismo”: quando a concorrência fica boa demais, eles sobem a muralha de impostos. E nós, que exportamos com suor, sangue e café, ficamos no bico da chuteira — pagando a conta da geopolítica global.
Enquanto o aço vira ouro nos EUA, o Planalto corre para os BRICS — aquele grupo de países que parece um condomínio de economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Brasil está lá tentando negociar uma “saída honrosa”: se os americanos fecham a porta, a gente bate nas janelas dos chineses. Aí o Lourão fica com raiva mas diz que o Lula é bonzinho. O mais bobo, por lá, faz relógio, com luva de boxe, olho fechado e dentro de uma piscina sem cloro.

Até aí, nada de errado. O problema é que o jogo dos BRICS é complicado. Eles compram, sim, mas só compram, querendo mandar nas regras. O Xi Jinping, por exemplo, adora um acordo — desde que seja ele quem redija as cláusulas. A Rússia, por sua vez, quer vender petróleo e gás a quem ainda aceita conversar com ela. E o Brasil? Fica no meio, tentando manter amizade com todo mundo e paz com ninguém.

A diplomacia brasileira está numa sinuca de bico: quando se aproxima demais da China, leva bronca dos EUA. Se dá risada com o Lourão, os chineses travam as importações de soja. É um jogo de empurra no qual o Brasil parece aquele aluno bonzinho da turma, que sempre entrega o trabalho em grupo, mas nunca deixam ele aparecer.

Agora, convenhamos, não adianta só reclamar das tarifas americanas. Precisamos também olhar pro espelho. Nosso sistema de impostos é uma sopa de letrinhas, com ICMS, IPI, PIS, COFINS, e um abecedário que assusta qualquer investidor. Se o Brasil não simplificar seu próprio hospitício tributário, achando que o mundo é bobo, vai continuar vendendo minério barato e comprando celular caro. Uma RAM, caminhonete pesada, nos Estados Unidos, custa R$250 mil, e no Brasil, acreditem, R$570 mil, porque temos R$320 mil de impostos. Também, pudera, temos empregos públicos em que pagamos para um funcionário, regiamente, só para empurrar a cadeira e esperar um muito obrigado do seu querido e cheiroso Soberano.

Do lado dos prós, há uma chance interessante: o Brasil pode aproveitar a briga entre os gigantes e negociar melhor sua posição no mundo. O Brasil poderia ser o “moderador tropical” entre Estados Unidos e China. É só jogar com inteligência e abandonar o emocional.

Mas há também os contras — e não são poucos.

Primeiro, depender demais da China, é como casar com alguém que exige a senha do seu banco e do seu celular.Segundo, achar que BRICS é “grupo de amigos” é ingenuidade: cada país ali defende o próprio bolso. Terceiro, achar que o governo brasileiro pode consertar tudo com discurso é puro romantismo diplomático.

O que fazer, então? Simples: mandar para as negociações pessoas que entendam de economia, não de slogans, trinta pilas e sanduba de mortadela. O Brasil precisa de negociadores profissionais, “os profissas”, aqueles que sabem dizer “não” com desmedida elegância e “sim”, com cara de quem perdeu mas saiu com lucro.

E o Presidente — qualquer que seja o nome e o partido — precisa parar de achar que política externa é palanque. Diplomacia não é palmas no palanque, é cálculo fino do mais puro interesse. Convidemos, também: chineses, russos, japoneses e coreanos para virem negociar, no Brasil. Eles fazem assim conosco, aqui no Brasil, nos nossos ambientes de negócios. Sempre querem atuar nos seus terreiros. Eles são socialistas nos palanques e vorazes capitalistas em todos os negócios.

A política internacional é como um jogo de xadrez em que cada peça vale alguns bilhões de dólares. Quem move com emoção, perde o cavalo, o peão, as torres e o Rei ficará chupando os dedos da Rainha. O Brasil tem commodities, terras férteis, energia, muita água e inteligência — só falta usar a simpatia e o nosso cérebro geopolítico.

No fim das contas, a tarifa americana é só um lembrete: quem não negocia com esperteza, paga imposto duas vezes — uma, logo na entrada, dentro da alfândega. A outra, por pura culpa nossa, é na ingenuidade.
A hora é de abrir o olho: deixar o romantismo de lado e pensar como país que quer ganhar dinheiro para o seu muito sofrido povinho.

Como dizia Roberto Campos: “O Brasil é o único país que tropeça nas próprias oportunidades”. E Mário Henrique Simonsen, depois de um chá, no copo de cristal escuro, completaria: “Economia é o estudo da escassez, e bom senso é o recurso mais escasso de todos.”

Está aí a maneira: menos discurso, mais planilhas; menos ideologia, mais estratégias. E, se possível, um pouco mais de humor e menos tarifa. Nada de brigar, vamos esgrimar e sorrir com as nossas pequenas e espetaculares vitórias.

Roberto Caminha Filho, economista, é torcedor do Brasil e fica doente quando perdemos em qualquer disputa.

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