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Roupa nova para a polarização (por Marcos Magalhães)

O presidente da Venezuela teria recusado uma oferta do presidente americano Donald Trump para deixar o cargo imediatamente

Repórter de Artigos02/12/2025 09:00, atualizado 02/12/2025 01:29
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Arte/Metrópoles
Imagem colorida mostra Nicolás Maduro e Donald Trump - Metrópoles

Escoltado por farto bigode, que parece ter saído de um filme dos anos 1950, Nicolás Maduro corre o risco de trocar o posto de protagonista pelo de figurante no atual cenário da América do Sul. Mas ainda pode contagiar a região como em um remake da Guerra Fria.

Segundo fontes citadas por jornais dos Estados Unidos, o presidente da Venezuela teria recusado uma oferta do presidente americano Donald Trump para deixar o cargo imediatamente e sair do país, levando consigo a família.

Enquanto o resto do mundo observa com atenção o que ocorre do outro lado do mundo, nas negociações de paz sobre a Ucrânia, o subcontinente esquecido do Atlântico Sul pode testemunhar uma crise militar sem precedentes nas últimas décadas.

Inicialmente, Trump enviou ao Caribe uma considerável força naval, aí incluído um porta-aviões que estava estacionado no Mar Mediterrâneo. Em seguida, considerou fechado o espaço aéreo da Venezuela. O que vem em seguida?

A Caracas de 2025 não tem o peso histórico de uma Havana do início da década de 1960, quando a crise aberta pela instalação em Cuba de mísseis nucleares soviéticos por pouco levou o mundo a uma terceira guerra mundial.

Mesmo assim, a Venezuela pode ser o palco de uma grande intervenção norte-americana na parte sul do que eles chamam de Hemisfério Ocidental. Algo que faz lembrar os tempos da Guerra Fria e, ao mesmo tempo, imaginar como serão as Américas desse início de século 21.

Trump alega que age em defesa da juventude dos Estados Unidos, inundada por perigosas drogas provenientes da América do Sul – por rotas que incluiriam a Venezuela. Ele já determinou o ataque a diversas pequenas embarcações suspeitas de tráfico.

Está nas mãos do presidente americano ordenar, ou não, um ataque militar direto à Venezuela, provavelmente a áreas onde se acredita haver atividades ligadas à cadeia de produção e exportação das drogas.

Se assim o fizer, vai dar uma roupa nova ao velho intervencionismo dos Estados Unidos na região. Vai também garantir munição a todas as forças políticas interessadas em apostar em uma polarização renovada na América do Sul, com reflexos diretos no Brasil que se prepara para as eleições gerais de 2026.

A potencial presença de tropas norte-americanas em solo da América do Sul tem vasto potencial de alimentação de velhos argumentos, dos dois lados do espectro político.

A direita bolsonarista poderá vibrar com as imagens de uma bem-sucedida ação militar, como a plateia incontida de uma antiga sala de cinema contagiada pelas cenas de chegada de tropas americanas para enfrentar os inimigos da vez – peles vermelhas, alemães ou comunistas.

Se o governador paulista Tarcísio de Freitas já deixa escapar sua simpatia pela pena de prisão perpétua para conter o crime organizado, não será difícil imaginá-lo em alertas para o que pode vir a acontecer no Brasil em seguida a um ataque à Venezuela.

Pela esquerda, também não será difícil prever uma reação imediata à possível violação da soberania de um país vizinho – bem ali, no terreno que prossegue em direção ao Mar do Caribe a partir de uma Amazônia compartilhada.

Pode não ser o cenário mais provável, mas uma possível invasão em larga escala do território venezuelano poderia colocar as tropas de Donald Trump frente a frente com os soldados do Exército brasileiro que defendem a nossa fronteira Norte. Bem ali, no meio da floresta.

A defesa da soberania – necessária e oportuna, no caso de uma invasão a um país vizinho – poderá ser acompanhada, por alguns setores da esquerda, pelos repetidos argumentos de que o Tio Sam sempre esteve mesmo de olho nas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo.

Pouco se dirá, ali, sobre as repetidas denúncias de violações de direitos humanos pelo regime de Nicolás Maduro. Ou mesmo sobre o fracasso econômico de um país tão rico.

Então poderemos ter uma direita radicalizada em defesa da intervenção americana para conter a criminalidade na América do Sul, sem dar muita bola para essa conversa de soberania. E uma esquerda radicalizada em defesa da soberania, sem ligar para os desastres políticos e econômicos da administração de Maduro.

Tudo isso no momento em que algumas vozes mais sensatas no Brasil, à direita e à esquerda, procuram temperar com um pouco de civilidade o debate eleitoral que se aproxima. Quem gosta de teorias conspiratórias, por outro lado, estará no paraíso.

É difícil prever se algum tiro será, de fato, disparado ao norte da América do Sul. Pode ser até que ocorra uma transição pacífica de poder. Pacífica, mas sob a sombra de aviões e navios de guerra a poucos quilômetros da costa.

Os próximos episódios do confronto, por sua vez, têm grande potencial de contagiar as forças que apostam na polarização desse lado da fronteira. Caberá às mentes mais sensatas resistir à tentação de incendiar os seus mais fiéis eleitores. O Brasil agradeceria.

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.