Palanques incertos (por Mary Zaidan)
Flávio está frágil no berço do bolsonarismo, onde Lula tem vantagem, mas mantém favoritismo em São Paulo – e Minas é briga e mistério
atualizado
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O imbróglio da governança do Rio de Janeiro não mexeu com o favoritismo de Eduardo Paes (PSD) ao Palácio Guanabara. De acordo com a Paraná Pesquisas, o ex-prefeito bate em 53% na preferência dos eleitores e pode até ser eleito no primeiro turno. Além de mais uma ducha de água fria no candidato do PL, deputado Douglas Ruas, com 13,2%, a sondagem, divulgada na sexta-feira, aponta a fragilidade de Flávio Bolsonaro em seu próprio Estado. Embora afirme contar com palanques em 20 estados, e apoio do Centrão em 18, há beiradas soltas nos três maiores colégios eleitorais.
Na terra governada por Tarcísio de Freitas (Republicanos), os embates no bolsonarismo se deram em torno da vice-governança e pretendentes ao Senado. Para solucionar a pendenga, o dono do PL, Valdemar da Costa Neto, foi atrás da autorização do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que seria o candidato natural caso não tivesse se auto-exilado nos Estados Unidos. E bateu o martelo: Tarcísio formará chapa pura e os candidatos ao Senado serão seu ex-secretário de Segurança, Guilherme Derrite (PP), e o presidente da Assembleia, André Prado (PL). É uma chapa “bolsonarismo raiz”, definiu Costa Neto.
Candidato à reeleição e líder em todas as pesquisas, Tarcísio garante que estará de corpo e alma na campanha de Flávio, mas seu empenho tem ficado aquém do desejado pelos bolsonaristas. Na semana passada, seus elogios ao candidato do Novo, Romeu Zema, ampliaram o desgosto.
Do outro lado, Fernando Haddad (PT) é palanque seguro para Lula, mas corre atrás do favorito. Na última pesquisa Quaest aparece com 42,6% enquanto Tarcísio crava 49,1%, bem próximo de resolver a parada na primeira rodada. Na disputa pelo Senado, Lula leva vantagem com duas candidatas competitivas – Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). Diante do favoritismo delas, o ex-ministro Márcio França (PSB) deve desistir da disputa.
Zema, estimulado pela repentina audiência depois de o ministro do STF Gilmar Mendes pedir abertura de processo contra ele por ter sido alvo de críticas, teve a sua semana de glória. Cotadíssimo para ser vice de Flávio, garantiu que manterá sua candidatura até o fim e sugeriu que Flávio fosse o seu vice. Voltou a dizer que apoia o filhote do ex, mas no segundo turno. Com isso cravou que ou bem vira vice ou Flávio terá mais um rival em Minas pelo menos até 4 de outubro.
O candidato do PL está tendo ainda muito trabalho para domar os seus. Só aumenta a rixa entre o clã Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira (PL) – o mais votado do Estado, expert em redes sociais com 22 milhões de seguidores no Instagram. Entre baixarias daqui e dali, Nikolas chamou o vereador Jair Renan de “toupeira cega”, reagindo às cobranças de que ele não mergulha de cabeça na campanha de Flávio.
Com histórico de definidor das eleições presidenciais, Minas tem uma característica única nestas eleições. Os dois nomes mais bem posicionados ao Palácio da Liberdade, Cleitinho Azevedo (PL) e Rodrigo Pacheco, recém filiado ao PSB, afirmam que não decidiram se serão ou não candidatos. Com isso, Flávio e Lula ainda não têm palanques no Estado.
Mas é no Rio que se concentram as maiores dores de cabeça de Flávio. No território berço do bolsonarismo, onde há oito anos o senador colheu mais de 4 milhões de votos, os escândalos em série derrubaram vários de seus aliados. Primeiro, os governadores Wilson Witzel, amigo do peito que virou desafeto do ex, e agora Cláudio Castro, que renunciou para não ser cassado e está inelegível. Além do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia estadual, preso por vazar dados de operações policiais a bandidos. Antes de ser condenado, Bolsonaro tinha garantido apoio a Bacellar na disputa ao governo do Rio.
Com a barafunda instalada, o bolsonarismo passou a apostar as fichas em Ruas, eleito às pressas à chefia da Assembleia para que pudesse assumir o governo. Na mesma sexta-feira em que o parlamentar viu o resultado da pesquisa que o deixa 40 pontos percentuais atrás de Paes, o ministro do STF Cristiano Zanin manteve o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, no comando do Estado até que a Corte defina se a eleição para o mandato-tampão, válido até o fim do ano, será direta ou indireta.
Couto se tornou uma pedra gigante para o bolsonarismo e seu candidato. Antes de completar um mês no cargo já tinha exonerado 638 fiéis servidores comissionados ligados ao ex-governador do PL. Suspendeu também vários repasses de legalidade duvidosa para prefeituras “amigas”. Um caminho que Ruas dificilmente conseguirá inverter. Melhor para Paes e para o Rio de Janeiro, vítima de toda sorte de abusos. E, de quebra, para Lula, que conta com o apoio explícito do ex-prefeito.
Mary Zaidan é jornalista


