Obrigado, Hungria (por Hubert Alquéres)

A saída de Orbán encerra um ciclo, mas abre outro, ainda incerto

atualizado

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Beata Zawrzel/NurPhoto via Getty Images
Imagem colorida mostra o premiê da Hungria, Viktor Orbán - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra o premiê da Hungria, Viktor Orbán - Metrópoles - Foto: Beata Zawrzel/NurPhoto via Getty Images

Assim que as urnas confirmaram a vitória do partido oposicionista Tisza, seu líder e próximo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, correu ao Facebook e postou: “Obrigado, Hungria”. O agradecimento não é apenas dele. O resultado eleitoral foi também um sinal político relevante para a Europa e para a Otan. A derrota do “iliberal” Viktor Orbán, eurocético de raiz e ícone da extrema-direita global, representa igualmente um revés para Vladimir Putin, que perde um aliado importante no interior da União Europeia.

No rol dos derrotados está também Donald Trump. Às vésperas da eleição, Trump declarou “eu amo Viktor” e enviou seu vice-presidente ao país dos magiares, prometendo apoio caso Orbán vencesse. Não foi suficiente. A eleição húngara reforça uma tendência já observada em outros contextos: o apoio explícito de Trump a candidatos estrangeiros nem sempre produz o efeito desejado, e, em alguns casos, parece ter contribuído para aumentar a rejeição.

Trump não foi o único a se mobilizar. Vladimir Putin também acenou com apoio, garantindo, semanas antes do pleito, que a Hungria poderia contar com fornecimento estável de petróleo e gás russos. O gesto evidenciava o valor estratégico de Orbán para Moscou.

A eleição húngara ganhou destaque global não pelo peso do país no sistema internacional, mas pelo significado de sua disputa. Ao longo de dezesseis anos no poder, Orbán tornou-se referência para uma onda populista e autoritária que se espalhou pela Europa e alcançou os Estados Unidos. O próprio termo “iliberal”, que ele ajudou a difundir, tornou-se uma marca desse projeto político.

Esse modelo encontra descrição precisa em Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Os autores mostram que, nas democracias contemporâneas, o colapso raramente ocorre por meio de golpes abruptos. Ele se dá, com mais frequência, pela erosão gradual promovida por líderes eleitos que subvertem as regras do jogo e distorcem as instituições.

Na Hungria, Orbán construiu uma autocracia eleitoral. As eleições continuaram existindo, mas foram acompanhadas por reformas institucionais que concentraram poder. Alterações no sistema eleitoral, no Judiciário e na Constituição ampliaram sua capacidade de controle. O paradoxo é evidente: ao perder a eleição, Orbán prova agora do próprio arranjo. O vencedor, Magyar, obteve 53% dos votos, e conquistará mais de 60% das cadeiras no Parlamento.

Durante mais de uma década e meia, Orbán consolidou um sistema baseado na centralização de poder, no enfraquecimento de mecanismos de controle e na mobilização permanente de um discurso nacionalista e anti-imigração. O ritual democrático foi mantido, mas o equilíbrio entre os poderes foi progressivamente tensionado.

Sua derrota marca um momento importante para a Hungria e para o debate mais amplo sobre o futuro das democracias. Ela enfraquece, ao menos simbolicamente, o euroceticismo e o modelo “iliberal” que vinha ganhando terreno no continente.

Mas não se trata de um retorno automático à normalidade democrática. O sistema político, as instituições e a própria cultura pública foram moldados ao longo desses anos. Desfazer esse legado exigirá tempo, reconstrução institucional e capacidade de reequilibrar regras que foram alteradas para sustentar um projeto de poder duradouro.

O momento atual se assemelha a uma transição de fase. A saída de Orbán encerra um ciclo, mas abre outro, ainda incerto. A oposição terá de demonstrar que é capaz de governar sem reproduzir práticas que criticou, ao mesmo tempo em que enfrenta uma máquina estatal profundamente redesenhada.

Há também implicações internacionais. A Hungria de Orbán tornou-se referência para lideranças que defendem modelos semelhantes em diferentes partes do mundo. Sua derrota pode sinalizar limites para esse tipo de projeto político, mas dificilmente significará seu desaparecimento. Ideias não se dissolvem com derrotas eleitorais; reorganizam-se, adaptam-se e retornam sob novas formas.

Por isso, o momento exige cautela. Celebrar a derrota como uma vitória definitiva da democracia seria precipitado. Ignorar sua importância, por outro lado, seria igualmente equivocado. O que ocorreu na Hungria é um marco relevante, mas seu significado dependerá do que virá a seguir.

Nesse sentido, as primeiras declarações de Péter Magyar, político de centro-direita e ex-aliado de Orbán, são um sinal positivo. Ele promete reformas institucionais para restaurar o papel do Parlamento e do Judiciário, além de reafirmar o compromisso com a União Europeia e a Otan.

Ainda é cedo para afirmar se estamos diante de uma inflexão mais ampla. Mas a derrota de Orbán se soma a outros episódios recentes que sugerem limites à expansão de projetos políticos de perfil semelhante. Não é o fim de um ciclo, mas pode ser um indício de que ele começa a encontrar resistência mais consistente.

Talvez ainda faça sentido recorrer à imagem de Churchill, após El Alamein: não é o fim, nem mesmo o começo do fim,  mas pode ser o fim do começo.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educacao.

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