O tripé que ameaça a reeleição de Lula (por Hubert Alquéres)
Lula parece apostar no temor de retrocessos institucionais como fator de mobilização.
atualizado
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A rodada de pesquisas de abril trouxe um conjunto consistente de sinais de alerta para a reeleição de Lula. O dado mais visível é a vantagem, ainda que estreita, de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. No levantamento Genial/Quaest, o senador aparece numericamente à frente, com dois pontos de diferença. Mais importante do que a fotografia do momento é a tendência: desde dezembro, a curva de Flávio é ascendente, enquanto a de Lula mostra estagnação.
Ao se observar recortes específicos do eleitorado, o quadro se torna ainda mais preocupante para o Palácio do Planalto. Há três áreas em que o desempenho do presidente se deteriora de forma mais acentuada: os jovens, a chamada nova classe média e os eleitores independentes. Trata-se de um tripé que, se não for recomposto, compromete as bases de sustentação de uma eventual reeleição.
Historicamente, Lula e o Partido dos Trabalhadores mantiveram forte identificação com a juventude, ancorados em um discurso de contestação e transformação social. Essa conexão, no entanto, perdeu vigor. Parte disso se explica por mudanças estruturais: os jovens de hoje são menos ideológicos, mais pragmáticos e orientados por expectativas de ascensão rápida e concreta. Ao mesmo tempo, o PT deixou de ocupar o espaço de força antissistema. Após anos no poder, passou a ser percebido como integrante da ordem estabelecida; papel que, paradoxalmente, abre espaço para que setores da oposição capturem o discurso de ruptura.
Os dados mais recentes da pesquisa evidenciam esse deslocamento. Entre eleitores de 16 a 34 anos, a desaprovação do governo alcança 58%, enquanto a aprovação recua para 40%. É uma inversão significativa em relação ao passado recente e indica perda de aderência em um grupo numericamente relevante. Os jovens ainda representam um contingente expressivo, aproximadamente o dobro da população idosa, o que amplifica o impacto eleitoral desse distanciamento.
Há, nesse ponto, um descompasso entre a agenda tradicional do lulismo, centrada na redistribuição de renda e em políticas de proteção social, e as aspirações de uma geração que valoriza mobilidade, empreendedorismo e ganhos tangíveis no curto prazo. Não se trata de rejeição à ideia de justiça social, mas de mudança na hierarquia de prioridades.
O segundo eixo de deterioração é a nova classe média, que ganha até cinco salários mínimos. Esse segmento, que teve papel decisivo nas vitórias petistas do passado, hoje demonstra crescente frustração. A aposta do governo na ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda buscava justamente dialogar com esse público, aliviando a renda disponível e impulsionando a popularidade presidencial. No entanto, os efeitos políticos da medida ficaram aquém do esperado. Segundo a Quaest, 57% dos eleitores nessa faixa de renda desaprovam o governo, mesmo após a implementação da isenção.
A razão parece residir menos na política específica e mais na percepção geral da economia doméstica. Indicadores macroeconômicos positivos (crescimento do PIB, queda do desemprego ou controle inflacionário) têm impacto limitado quando não se traduzem em melhora perceptível no cotidiano. O custo de vida elevado, especialmente em itens essenciais como alimentos e medicamentos, aliado ao alto nível de endividamento das famílias, compõe um ambiente de insatisfação difusa.
O programa Desenrola Brasil, lançado em 2023 para renegociação de dívidas, ofereceu alívio temporário, mas não alterou estruturalmente o problema. Menos de dois anos depois, os níveis de endividamento voltaram a patamares elevados. Novas iniciativas semelhantes podem gerar efeitos de curto prazo, mas tendem a esbarrar no ceticismo de uma população que percebe a recorrência do ciclo. Sem enfrentar fatores como o custo do crédito, a dinâmica da dívida pública e a pressão inflacionária sobre o consumo, medidas pontuais têm alcance limitado.
Há também uma demanda crescente por políticas que incentivem o empreendedorismo não apenas como alternativa emergencial, mas como estratégia de mobilidade social. Esse é um ponto em que o discurso governamental ainda não se mostrou plenamente ajustado às expectativas desse segmento.
O terceiro componente do tripé é o eleitorado independente. Esse grupo, que não se identifica de forma rígida com polos políticos, representa cerca de 30% do eleitorado e tem sido decisivo nas últimas disputas presidenciais. Em 2018, inclinou-se majoritariamente para Jair Bolsonaro; em 2022, migrou para Lula. Agora, os sinais indicam nova inflexão. De acordo com a Quaest, em um eventual segundo turno, 33% desses eleitores votariam em Flávio Bolsonaro, contra 27% em Lula.
Em um cenário de polarização consolidada, com bases eleitorais relativamente estáveis e fiéis em ambos os campos, são os independentes que definem o resultado final. A disputa, portanto, desloca-se para o terreno da persuasão. Nesse aspecto, o senador parece obter algum êxito ao se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo, estratégia que, independentemente de sua consistência, tem produzido efeitos políticos.
Já Lula parece apostar no temor de retrocessos institucionais como fator de mobilização. Em 2022, essa estratégia do medo mostrou-se eficaz, mas começa a fazer água a menos de seis meses da eleição. Não por um problema de “sindonização”, para usar a ironia de João Santana, numa alusão a Sidônio Palmeira, ministro das Comunicações de Lula.
Segundo Santana, ele próprio ex-marqueteiro de Lula, o problema diz respeito ao modelo adotado: a comunicação passou a prevalecer sobre a política. Quando isso ocorre, sacrificam-se ideias e capacidade de mobilização, em nome de um pragmatismo raso, de curto alcance. Perde-se, assim, algo essencial em qualquer projeto político competitivo: a capacidade de produzir sentido, expectativa e esperança.
Para ele as pessoas querem ganhos materiais, sem dúvida. Querem melhora de renda, alívio no custo de vida e menos aperto no orçamento. Mas não apenas isso. Também esperam governos capazes de oferecer direção, horizonte e alguma ideia de futuro.
Se Lula não apresentar um novo projeto de país que volte a despertar expectativa e esperança, e não enfrentar ao mesmo tempo o tríplice problema que hoje ameaça sua reeleição, poderá chegar às urnas em posição bem mais frágil do que imagina.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.


