O pessimismo e o espírito de 2013 (por Antônio Carlos de Medeiros)
É num ambiente antissistema que o país vai para as eleições de 2026
atualizado
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O pessimismo antissistema do zeitgeist (espírito de época) das manifestações de 2013 está de volta na sociedade brasileira. O filme de país dos escândalos está de volta. Com nova e profunda crise de confiança nas instituições (Judiciário, Legislativo e Executivo).
Crises de confiança no Estado de Direito, como sabemos, são a antessala de ameaças de colapso de regimes. Nova crise da democracia representativa no Brasil.
Crise de legitimidade do sistema político. Fratura exposta entre sociedade e Estado.
Olhando sob o prisma da sociedade, os primeiros sintomas estão claros e já se espalharam pelo país todo: pessimismo econômico e político e rejeição dos políticos e da Política.
Numa só palavra: o status quo. Ele está sob escrutínio outra vez. Atinge ministros do supremo; parlamentares do Congresso Nacional e o presidente da república incumbente. No imaginário nacional, “a cara do status quo” é o presidente da república. Ou seja, o presidente Lula. É assim em sistemas presidencialistas, ainda que o presidencialismo brasileiro esteja mais frágil.
Sinais de movimentações estruturais das placas tectônicas de 2013 estão em toda parte. São retratadas pelas movimentações dos índices das pesquisas. Mas, acima de tudo, são vistas e antevistas pelo avanço generalizado do pessimismo econômico e político. Digamos que estão no coração e na alma do brasileiro.
Basta enumerar apenas alguns números das últimas pesquisas (Datafolha; Quaest; Futura e outras): a desaprovação do governo Lula subiu para 51% e a aprovação caiu para 44%. O “medo de Lula” é de 43%. O “receio do bolsonarismo” é de 42%. A desconfiança no Supremo Tribunal Federal (STF) subiu para 43%. A desconfiança nos partidos políticos está em 52%.
E na Quaest ainda um outro dado desastroso para o governo Lula: a percepção de que o desempenho da economia brasileira piorou cresceu de 43% para 48%. Pessimismo e desesperança no futuro.
É neste ambiente antissistema que o país vai para as eleições de 2026. Com forte tendência à alienação eleitoral (brancos, nulos e abstenções). E com o registro, nas pesquisas, do crescimento do eleitorado do centro do espectro político. Aqueles chamados de “nem-nem” ou de independentes. Querem distância dos extremos do espectro político, onde reside a chamada “polarização calcificada”.
Análise recente da prestigiosa revista “The Economist” mostra que expectativas pessimistas podem se tornar profecias autorrealizáveis. E que crises de confiança corroem as instituições públicas e a iniciativa privada. Atacam o chamado “espírito animal” dos empresários e investidores, reduzindo investimentos e travando o crescimento econômico.
Para a The Economist, “o pessimismo é o principal problema econômico mundial”. Pois é. Agora está se espalhando pelo Brasil.
Ela mostra que a energia positiva é escassa. E que “o pessimismo se tornou generalizado e persistente”.
Cita índices de confiança do consumidor e novas pesquisas (FGS Global e Gallup) para mostrar que um tipo de “consenso sombrio” e pessimismo está presente nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá, na União Europeia e no Japão.
A tendência é queda de investimentos, aumento dos gastos públicos e dificuldade de contenção fiscal sustentável. Ondas de protecionismo econômico, déficits elevados e inflação maior. Tudo já em curso : ”no ano passado (2025), o déficit orçamentário médio dos países ricos ultrapassou 4% do PIB; nos Estados Unidos mais próximo de 6%”. Tende a piorar com o avanço das guerras e do complexo industrial militar americano.
Concluindo, The Economist observa que “o mal-estar é terreno fértil para populistas que prometem protecionismo e gastos em vez de reformas. Isso alimenta um ciclo vicioso em que o pessimismo impulsiona o apoio a líderes populistas, cujo governo enfraquece as instituições e prejudica o crescimento”.
Causas e efeitos do pessimismo. Com o registro factual de que “os países governados por populistas sofrem danos econômicos duradouros, com rendas mais baixas e maior instabilidade muito tempo depois de assumirem o poder”.
O que o Brasil precisa e quer é reformas. Poderá conseguir se o pessimismo da sociedade se transformar em votos por mudanças reais com reformas. Reforma política; racionalização de gastos; reforma administrativa; e reforma previdenciária.
Outra vez: é preciso “curar” a fratura entre Estado e Sociedade.
É difícil. Mas é possível. E factível. Construir uma Agenda de Futuro no processo eleitoral de 2026.]
Começando pela renovação do Congresso Nacional para 2027.
*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.


