Gênero não é salvo-conduto (Mirian Guaraciaba)
Detalhes sombrios não deixam dúvida: Monique não é inocente pela morte do filho de 4 anos
atualizado
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Elisabeth Louro preside o Segundo Tribunal do Juri do Rio de Janeiro há 30 anos. Fez jornalismo pela UFRJ, e aventurou-se no teatro. Como jornalista, distorceu a seu prazer a história de Monique Medeiros para conceder à mãe de Henry Borel perdão judicial. Como juíza, causou perplexidade à esquerda e à direita, indignou feministas, ativistas ou não, espantou juristas. Ignorou fatos que apontavam Monique como mãe omissa, narcisista, manipuladora.
A mãe de Henry não é inocente. Permitiu escalada de sofrimento ao filho de apenas quatro anos de idade. Henry foi assassinado pelo então companheiro de Monique. Sofreu 23 lesões pelo corpo. Henry conviveu no mesmo apartamento com o namorado de Monique, ex-vereador Jairo Souza Santos Junior, por menos de dois meses.
Impossível ignorar a pressa com que o dr. Jairinho se sentiu à vontade para violentar o menino frágil de 4 anos de idade. Henry contou para a mãe que “o tio o machucava com abraços muito apertados”, que havia dado uma “banda” a ponto de deixá-lo mancando, dava “cocão” (socos na cabeça). Outros sinais foram banalizados por Monique.
A mãe “zelosa”, como a chamou a juíza, não deu importância às queixas do pequeno, nem aos relatos de sua babá. Se distraia indo do salão ao shopping, encantada com a vida mansa oferecida por Jairinho, e salário de R$ 20 mil do Tribunal de Contas do Município, emprego oferecido pelo ex-vereador, sem nunca ter pisado na repartição.
A vida boa de Monique foi mais forte que o amor ao filho. A juíza que presidiu o júri preferiu ver misoginia onde havia apenas vaidade, alegou campanha contra a mãe nas redes sociais, “apenas por ser mulher”. As reações ao equívoco de Elizabeth Louro nas redes não se comparam à perplexidade ao seu “perdão judicial”.
A Ministra Carmen Lucia, única mulher no STF de hoje, falou de seu espantou num Podcast da Globonews. “O júri chegou a uma conclusão, nada a ver com o fato de ser homem ou mulher. Gênero não é salvo-conduto para prática de crime, não pode ser utilizado para afastar a responsabilização criminal”. Entre as provas contra Monique constam sua movimentação na noite do crime. Ela alega que estava dormindo, mas deu mais de 200 passos pelo apartamento, registrou seu celular. Dr. Jairo, 300 passos.
Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra, escritora, recebeu Leniel, pai de Henry em seu programa PodPeople no Youtube, depois do julgamento, e não economizou no diagnóstico: São psicopatas. “Monique não é aquela mocinha boazinha que apareceu no júri. Não é submissa. Ela mente, é manipuladora. Ela pediu a sua ajuda (do pai) para adaptar seu filho ao inferno”, interpretou Ana Beatriz, ao ouvir o relato do pai.
A psiquiatra escreveu “Mentes perigosas”, de cujo livro foram tirados trechos para descrever Jairo Souza Santos Júnior, durante o julgamento. O promotor Fábio Vieira entrou com recurso para anular o perdão – o pai Leniel fez o mesmo – e é taxativo: “Homicídio culposo não é isenção de culpa”. A distorção promovida pela Juiza inverteu as perguntas feitas ao júri para desclassificar a acusação de homicídio intencional para homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, e condená-la pelo crime de tortura por omissão”.
A juíza justificou o perdão alegando que Monique sofreu castigo severo por perder o único filho e foi “condenada pelas redes sociais”. Monique não perdeu seu único filho. Monique ajudou a matá-lo. No dia seguinte ao enterro de seu único filho foi ao salão. Na delegacia onde prestou depoimento 15 dias após a morte de Henry, Monique fez selfies e pediu pizza.
O delegado Henrique Damasceno contou, durante o julgamento, que ela estava “completamente à vontade”. Não havia resquício de dor, nem arrependimento. Essa era a mãe “zelosa” citada pela juíza, que já enveredou pelos palcos, e nunca exerceu o jornalismo. “Comportamento atípico dez dias após a morte de seu único filho”, atestou o delegado.
A defesa de Jairinho também apresentou recurso contra sua condenação. Os advogados alegam parcialidade da juíza Elizabeth Louro. O ex-vereador foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte de Henry. Jairinho e Monique poderão ir a júri novamente. O doutor vai amargar sua sentença. Monique, se a Justiça for feita, deve fazer companhia ao ex-companheiro.
VORCARO
Monica Bérgamo, na Folha: A Polícia Federal deve rejeitar a nova proposta de delação premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A comunicação aos advogados do empresário deve ocorrer nos próximos dias.


