
Todo poder corrompe (por André Gustavo Stumpf)
O panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Esta inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e as sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.
Os fazendeiros do meio-oeste dos Estados Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo. Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: Aumentar tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.
Há motivos político-eleitorais e econômicos para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o quadro que está a sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica. Ele não contestou sua própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio, passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São Paulo.
Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não queria. Seus interlocutores, como maior ou menor clareza, afirmaram que seu problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata a vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional. Foi um desastre.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO panorama eleitoral brasileiro é construído por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição. Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Este fenômeno aponta para outra direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.
A ideologia do governo Lula está estacionada em algum momento dos anos setenta. Sua fórmula populista se esgotou. Ele elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação, de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil comércio internacional.
Dois exemplos estão absurdamente nítidos. Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo nas Américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em Havana foi privatizar o possível. Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicaragua, decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país “para evitar que a oposição tome o poder”. Extinguiu a democracia. Ele, velho comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.

