O país que promete tudo e perde os jovens (por Roberto Caminha Filho)

Importa mesmo é o melhor diagnóstico: “aqui não compensa ficar.”

atualizado

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Fotografia colorida mostrando quatro universitários estudando em sala-Metrópoles
1 de 1 Fotografia colorida mostrando quatro universitários estudando em sala-Metrópoles - Foto: OVG

O nosso Brasil é um país generoso. Generoso nas promessas, generoso nos discursos e, principalmente, o mais generoso na capacidade de acreditar que desta vez vai dar certo.

A cada eleição, surge uma nova prateleira de mágicas soluções: mais benefícios, mais programas, mais Estado, mais tudo do melhor. É como se o país, proprietário da varinha mágica, tivesse descoberto a fórmula da prosperidade infinita — só esqueceram de avisar para a Dona Realidade. Porque a Dona Realidade, essa inescrupulosa e disciplinada Senhora, não vota. Mas sabe cobrar.

Enquanto os palanques distribuem esperança em suaves parcelas, uma parte silenciosa do Brasil faz outra escolha: vai embora. E não estamos falando de fuga desesperada. Estamos falando de decisão racional, familiar, coisa pensada por geração. O jovem brasileiro, cada vez mais bem informado, já entendeu a regra do jogo.

Ele olha para o país e vê um sistema onde: quem produz paga mais, quem investe arrisca demais e quem promete ganha eleição. Resultado? Ele pega o passaporte e voa. Paraguai, Portugal, Estados Unidos — não importa o destino. Importa mesmo é o melhor diagnóstico: “aqui não compensa ficar.”

E esse talvez seja o maior escândalo brasileiro — aquele que não consegue virar manchete.

Porque quando um jovem vai embora, não vai só uma pessoa. Vai um engenheiro, um médico, um empreendedor, um contribuinte. Vai alguém que produziria riqueza aqui, geraria empregos aqui, pagaria impostos aqui e pagaria a montanha de aposentados sem as suas heroicas aposentadorias cruelmente subtraídas pela geração anteriormente votada e esperada como a geração salvadora.

Mas o Brasil, com sua criatividade peculiar, conseguiu transformar o futuro em produto de exportação. E tudo isso acontece enquanto seguimos acreditando no velho “Bolsa Promessa”. E, todos, em franca harmonia, cantam: a NASA agora vem, o Brasil não é para amadores.

Funciona assim: o político promete benefício imediato, o eleitor aceita, e a conta chega depois — com juros, inflação, crescimento baixo e miséria cubana.

É quase um crediário eleitoral: leva agora, paga depois e sem a salvadora opção da bendita devolução. O problema não é ajudar quem precisa. Isso é civilização. O problema é vender ilusão colorida como política pública permanente.

Como já ensinava o genial Roberto Campos, não existe almoço grátis — mas no Brasil insistimos em fingir que existe jantar, sobremesa e cafezinho por conta do Tesouro. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até que se esforça. Recentemente, tentou, com quase 5 bilhões  de Reais dos brasileirinhos, salvar o Banco Master, do heróico e bondoso Vorcaro.

E aqui entra o ponto mais delicado — e mais divertido, se não fosse trágico: o comportamento do eleitor brasileiro.

O brasileiro reclama do imposto… e vota em quem promete gastar mais.
Reclama da inflação… e aplaude políticas que a alimentam, mesmo sem saber. Reclama da falta de oportunidades… e desconfia de quem fala em produtividade.

É o que podemos chamar, com todo o carinho brasileiro, de voto contraditório.

Não é ignorância — é desespero misturado com esperança. É o cidadão tentando resolver, no voto, aquilo que deveria ser resolvido com responsabilidade fiscal e regras claras. Mas esperança sem fundamento vira frustração recorrente. E a economia não perdoa contradições por muito tempo. Enquanto isso, o jovem observa. E decide.

O jovem não entra na discussão ideológica. Não discute esquerda ou direita. Ele compara. Compara o tempo para abrir uma empresa. Compara a carga tributária. Compara a segurança jurídica. Compara a chance de crescer. E, diante disso, faz algo que o Brasil ainda não aprendeu a fazer: escolhe com pragmatismo. Vai para onde o esforço vale a pena.

E aqui está o ponto central que deveria assustar mais do que qualquer escândalo político: o Brasil não está perdendo apenas dinheiro, está perdendo gente boa, gente forte, os reais pagadores de aposentados. E país nenhum cresce quando exporta seu melhor capital humano. Chegamos, então, à encruzilhada de outubro. O eleitor terá duas opções, como sempre teve:

Votar em quem promete aliviar o presente, ignorando o custo futuro, ou votar em quem propõe ajustes difíceis, mas necessários.

A primeira opção é confortável. A segunda é responsável. A primeira ganha aplauso, beijo, bênção e abraço imediato. A segunda constrói prosperidade. E aqui vai a parte incômoda: não existe terceira via mágica.

Ou o Brasil enfrentará, cada vez mais seus problemas estruturais — gasto público exagerado, burocracia insustentável, insegurança jurídica — ou continuará, da arquibancada, traseiro no cimento quente, assistindo seus jovens partirem com uma mistura de tristeza, potência e lucidez. Um exemplo muito cruel: uma motocicleta brasileira é produzida, com excelente padrão de qualidade, a cada quinze segundos e desembaraçada a cada dois dias.

Porque eles já entenderam algo que ainda resistimos em aceitar: país bom não é o que promete mais é o que permite crescer. No fim das contas, a eleição não é sobre candidatos. É sobre escolhas. E a mais importante delas é simples: Queremos um país que distribui promessas…ou um país que cria oportunidades?

Porque, se continuarmos escolhendo a primeira opção, não será surpresa quando o futuro — educado, produtivo, forte e cheio de energia — continuar fazendo as malas. Se os jovens “pegam o rumo”, quem pagará os assaltados aposentados? Os baianos de Pequim?

E, quando percebermos, o Brasil estará diante de um problema antigo:

Não faltará emprego. Faltará gente qualificada para trabalhar.

E aí, meu caro, amigo e simpático leitor, não haverá, neste mundo de Meu Deus, promessa que resolva.

 

Roberto Caminha Filho, economista, olha para os seus netos e a preocupação chega arrombando.

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