O mal-estar do brasileiro (por Antônio Carlos de Medeiros)

Os fatos e os dados mostram que o ano de 2027 já está contratado no Brasil. Ano muito difícil, com baixo crescimento e ameaça de carestia

atualizado

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Vinicius Schmidt/Metropoles
Supermercado mercado inflação
1 de 1 Supermercado mercado inflação - Foto: Vinicius Schmidt/Metropoles

As pesquisas desta semana (Datafolha, Futura e Quaest) retratam o mal-estar do brasileiro. Ainda pode piorar. A guerra no Irã acendeu a luz amarela. Estrangulamento em curso do fornecimento global de energia. Resulta em horizonte de inflação e estagnação.

Estes são os prováveis efeitos externos no aumento do mal-estar.

Enquanto isto, os efeitos internos já se acumulam pelo menos desde a pandemia, em rota crescente. Endividamento das famílias e das empresas brasileiras e crescimento da dívida pública.

Mais dívida em relação ao PIB, mais juros para rolar a dívida, mais aumento da taxa de juros pelo Banco Central, mais carestia no crédito para famílias e empresas, mais endividamento, mais carestia no supermercado. Tudo em processo de retroalimentação.

Quase um terço da renda das famílias é para o pagamento de dívidas. Em fevereiro 80,2% das famílias tinham dívida o mais alto patamar desde 2010.

Com a dívida bruta do governo brasileiro projetada para 83,6% do PIB em 2026 pela Instituição Fiscal Independente.  A tendência, segundo o IFI, é passar de 100% do PIB até 2030. O Brasil devendo mais do que tudo o que produz em um ano.

Os fatos e os dados mostram que o ano de 2027 já está contratado no Brasil. Ano muito difícil, com baixo crescimento e ameaça de carestia constante. Com o governo à beira do chamado “shutdown”.

Todo dia tem uma nova tensão. A tensão está no ar. Medos, incertezas e ódios rondam a vida dos brasileiros. Com impulsos primitivos de violência.

Permanece predominante a sensação de mal-estar. Carestia, desassossego, baixa qualidade dos serviços públicos. A sensação que piorou, mostrada pelas pesquisas. Combinação de desencanto e revolta.

Há algum tempo atrás Christopher Garmam observou que “a geologia da opinião pública está podre” na América Latina (e no Brasil).

Resta urgente que o debate presidencial precisa apontar saídas para o Brasil. Qual futuro?

Conseguiremos superar o mal-estar dos brasileiros? Vamos lembrar que o “mal-estar da civilização” (escrito em 1929 por Freud), se refere à teoria freudiana de que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem seria a primeira causa dos distúrbios psicológicos daquele tempo. Agora também? Distúrbios que resultam em medo, ódio e revolta.

Qual será o presidente eleito em 2026 que vai encarar o desafio a partir de 2027?

Aprendemos com a História que um país não funciona sem Agenda (com “A” maiúsculo). Pois o Brasil, hoje, é um país sem uma Agenda democraticamente pactuada. A nau errática segue em zigue-zague. Pode piorar, como nos mostram os fatos, dados e tendências.

Agenda. Qual? Este é o desafio diante de nós em 2026 e 2027.

Está claro que 2027 precisa ser recontratado. Como criar forças políticas e econômicas para superar a piora da conjuntura e, também, das estruturas? A incógnita crescente é: que candidatura vai conseguir amealhar força para ajustar a bússola do país?

Vêm daí algumas constatações políticas que só fazem crescer a incógnita.

A primeira é que vivemos num semipresidencialismo “de fato”, com o Centrão diante de um presidente frágil.

A segunda é o crescente peso do “não voto” (brancos, nulos, abstenções) nas eleições – criando déficit de legitimidade do presidente e de representatividade dos congressistas.

E a terceira é a de que as mudanças esperadas requerem um novo pacto de poder. Esta é a questão chave. O país vive uma crise de Hegemonia.

A construção de um novo bloco de poder com legitimidade. Isto é, a costura, já no debate político-eleitoral, de uma Frente Ampla de partidos e lideranças legitimadas pelo voto popular e reconhecidas pelas forças oposicionistas.

Essa percepção de que as necessárias mudanças sócio-econômicas e político-institucionais requerem capital político, capital social e capital simbólico respaldado em novo bloco de poder precisa guiar as alianças da candidatura presidencial que, uma vez vitoriosa nas urnas, vai governar o Brasil. Pois as mudanças precisam mexer no cerne do pacto de poder vigente.

É mudar ou mudar. A permanência do status quo vai aprofundar conflitos e impedir a superação da anomia social. E do mal-estar dos brasileiros.

A demanda da sociedade é por mudanças. Qual será a oferta política, isto é, qual será a liderança, legitimada pelas urnas, que vai governar o Brasil?

As pesquisas mostram que as eleições presidenciais estão em aberto. A Quaest mostrou 62% de indecisos e 43% que podem mudar o voto.

*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

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