O império contra-ataca (por David Pontes)

Num dos mais explícitos discursos pró-colonialistas recentes, Rubio proclamou o regresso da lógica imperial, anterior à Segunda Guerra

atualizado

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Andrew Harnik/Getty Images
Trump e Rubio
1 de 1 Trump e Rubio - Foto: Andrew Harnik/Getty Images

De uma coisa a administração Trump não pode ser acusada: a de não ser absolutamente clara nos seus propósitos ou de deixar por dizer quais são as raízes do seu pensamento. Tal como J.D. Vance o ano passado, coube agora a Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano, esclarecer totalmente, na conferência de Munique, o pensamento de Trump para o mundo.

O seu tom suave, a sua garantia de que os EUA continuam a contar com a Europa, conseguiu apaziguar as lideranças europeias, mas não lhes pode ter deixado qualquer réstia de dúvida de que a velha ordem internacional está enterrada. O relatório divulgado antes da conferência, com o sugestivo título “Em destruição”, resume: “O mundo entrou num período de política de demolição. Destruição em larga escala — em vez de reformas cuidadosas e ajustes de políticas públicas.”

Num dos mais explícitos discursos pró-colonialistas de que há memória nos tempos mais recentes, Marco Rubio proclamou o regresso da lógica imperial, anterior à Segunda Guerra Mundial. Enalteceu os gloriosos “cinco séculos” em que a “civilização ocidental” foi “construindo grandes impérios que se espalharam pelo mundo inteiro” e que, segundo ele, terminaram por causa do comunismo, abrindo caminho à independência dos povos colonizados.

A proposta é que, agora unida “por séculos de história compartilhada, fé cristã, cultura, herança, língua, ancestralidade”, a civilização ocidental regresse ao seu papel de dominador. Os Estados Unidos, que no passado mascaravam as suas intenções, já começaram. Gaza, Venezuela e em breve, muito provavelmente, Cuba são bons exemplos desta nova forma de atuar.

O mundo da cooperação, em que os mais ricos se preocupavam com os mais pobres, com mecanismos de incentivo à coesão, de que à sua maneira Portugal beneficiou com a entrada na União Europeia, é uma coisa do passado. A destruição da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi o prenúncio e os cortes em todas as organizações humanitárias é a continuação. Segundo a OCDE, em 2025, os países europeus terão diminuído entre 9% e 17% as suas ajudas ao desenvolvimento. Sem uma inversão desta tendência, a revista científica The Lancet calcula que haverá um acréscimo de mais de 22 milhões de mortes até 2030.

Os líderes europeus continuam a assegurar-nos que não querem trilhar o caminho do egoísmo planetário. Mas o aplauso geral que prestaram ao discurso de Marco Rubio mostra, infelizmente, que temos fundadas razões para duvidar da sua força para garantirem isso.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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