O espírito brasileiro (por Miguel Esteves Cardoso)
Façamos o Carnaval em agosto. Deixem-nos ir diretamente da praia para o desfile. Dispensem-nos, por favor, de tremer de frio
atualizado
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Para aqueles que, como eu, procuram imitar o espírito brasileiro, sem a trabalheira de ter de estudá-lo, é pelo Carnaval que deveríamos começar.
Imitemos os Carnavais brasileiros que não o do Rio de Janeiro, até para aprender que quem consegue pôr-se feliz, e se organiza para se divertir, não vive na sombra de ninguém.
A homenagem sincera ao Lula feita pela escola de samba Acadêmicos de Niterói – para não falar no ardor da reação – mostra que o Carnaval no Brasil não é para fazer troça: é para fazer amor.
É um festival de adoração, de adoração própria, de amor do Brasil pelo Brasil, dos brasileiros pelos brasileiros, dos vivos pela vida, dos dançarinos pela dança, dos apaixonados pela paixão.
Aproveitemos os nossos novos vizinhos brasileiros – a melhor dádiva populacional que tivemos desde que passaram por cá os fenícios – para lhes pedir que nos expliquem o Carnaval.
O Carnaval é o povo a adorar-se. E o segredo do Carnaval brasileiro é que não copiam ninguém, não levam a mal serem copiados – e querem lá saber disso das cópias quando o que interessa é a diversão
Diversão é desvio, é sair da via principal do ano inteiro. É mais do que dar uma curva: é fugir. Mas sabendo regressar à via principal, quando o Carnaval acabar: por isso é que é um desvio, por isso é que é divertido.
O Carnaval português – que todos sabemos ser um sério candidato a pior do planeta – muito ganharia em copiar não o Carnaval do Brasil, mas o espírito brasileiro do Carnaval.
A primeira coisa a copiar é a mais óbvia de todas, tão presente que passa despercebida: façam o Carnaval no Verão.
É estúpido fazer o Carnaval no Inverno. A liberdade é a primeira regra do Carnaval. Os brasileiros fazem o Carnaval em Fevereiro porque Fevereiro é o Agosto deles.
Façamos o Carnaval em agosto. Deixem-nos ir diretamente da praia para o desfile. Dispensem-nos, por favor, de tremer de frio.
E arranjemos maneira de nos adorarmos a nós próprios – com a nossa música.


