O enterro de luxo do Tio Sam (por Felipe Sampaio)

Os bombardeios ianques acertaram em cheio e online a economia mundial e a própria credibilidade norte-americana

atualizado

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Win McNamee/Getty Images
Trump em discurso no Capitólio
1 de 1 Trump em discurso no Capitólio - Foto: Win McNamee/Getty Images

Nem sempre vencer uma guerra é o bastante para ser o vencedor. Não é como uma partida de futebol. Se seu time vencer ele é o vencedor. O placar é evidência suficiente. Nas guerras é diferente. Um país pode despejar mais bombas, matar mais inimigos, destruir mais pontes e ainda assim sair perdendo. Os americanos são reincidentes nessa categoria de vencedores derrotados. É o que um amigo meu chamaria de ‘enterro de luxo’ (o cara ostenta, mas tá morto).

Por exemplo, foi isso que aconteceu na Corea nos anos 1950, onde o Ocidente perdeu a Corea do Norte para a China e a URSS. Os EUA fizeram o maior estrago na península detonando mais cidades, campos e populações do que o inimigo vermelho e mesmo assim saíram derrotados, apesar de a TV e Hollywood mostrarem vitórias heroicas em escaramuças sem importância. No Vietnam foi pior ainda. Devastaram o país, derramaram mais explosivos do que durante toda a II Guerra Mundial e acabaram batidos pelos comunistas novamente.

O mesmo se repetiu mais recentemente no Afeganistão, onde EUA e também a Rússia vivenciaram a mesma experiência de vitória às avessas, quando detonaram geral mais uma nação pobre e desestruturada, para terminarem expulsos vexatoriamente. Parece que a Casa Branca se acostumou ao modelo, porque estão seguindo a mesma cartilha agora no Irã. Mandando bala a esmo, matando autoridades e armando a maior confusão econômica, com toda aquela cara de quem vai perder mesmo que vençam, novamente. Dessa pode ser pior.

Na guerra não declarada contra os Aiatolás que vem se desenrolando nas últimas semanas o Tio Sam poderá sofrer seu funeral mais luxuoso desde a inauguração dos Estados Unidos da América. Agora, os bombardeios ianques acertaram em cheio e online a economia mundial e a própria credibilidade norte-americana. O arsenal mais caro e sofisticado do planeta sendo torrado num confronto assimétrico contra armas de baixo custo e tecnologia simplória, no qual o inimigo inferior leva à exaustão os recursos e a imagem da potência mais poderosa da história. Para completar, o conflito esparramou prejuízos econômicos entre nações e grupos empresariais espalhados por todos os continentes.

Acontece que os mísseis do Pentágono miraram em Teerã e acertaram nos aliados europeus, provocando a maior quebra de confiança entre Washington e seus parceiros históricos desde o início do século XX. É bem verdade que o multilateralismo representado pela ONU já andava cambaleando ultimamente. Contudo, balançar os pilares da poderosa Organização dos Países do Tratado do Atlântico Norte seria inimaginável até nos piores espasmos nacionalistas de Theodore Roosevelt (se a OTAN já existisse na época). O presidente norte-americano acertou no próprio pé e nos de muita gente que apostou nele.

O FMI alertou ontem mesmo que “se a guerra com o Irã terminar hoje, a economia e os mercados vão levar anos para voltarem ao normal”. Alguns países asiáticos e africanos já declararam estado de emergência energética e alimentar. O preço do petróleo decolou mais de 60%, levando junto os combustíveis, o frete, os alimentos, as matérias-primas, as distâncias, os prazos de entrega, os custos, os riscos e as incertezas (para muitos, o lucro é a única coisa que está caindo junto com as bombas). Dessa vez, o enterro promete ser tão luxuoso que nem a indústria de defesa consegue festejar ainda. O rombo no caixa dos EUA pode inviabilizar as compras militares, sob pena de paralizar o governo como um todo.

Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife, é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa.

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