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O capitalismo em movimento (por Antônio Carlos de Medeiros)

O complexo industrial militar dos EUA atua na lógica imperial do capitalismo político de Donald Trump. Já foi a Venezuela. Agora é o Irã

atualizado

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Kyle Mazza/Anadolu via Getty Images
U.S. President Donald Trump
1 de 1 U.S. President Donald Trump - Foto: Kyle Mazza/Anadolu via Getty Images

A lógica imperial de acumulação de capital aproxima o capitalismo ocidental (neoliberal) do capitalismo oriental (político). Com a atuação de novos complexos industriais militares. O capitalismo em movimento. Com as incertezas da geopolítica em mutação. E a tríade imperial: Estados Unidos, China e Rússia.

Neste contexto geopolítico, as reflexões e propostas do chamado Consenso de Londres são ferramentas úteis para compreender os novos movimentos do capitalismo no Século XXI.

Para enfrentar os novos desafios, o capitalismo precisa combinar os princípios de inovação do chamado neoliberalismo com os princípios de inclusão do chamado estado do bem-estar social. Essa é a antevisão do Consenso de Londres.

Para além dos dogmas. O mundo mudou. Mudaram-se as circunstâncias, ampliaram-se as volatilidades e incertezas da geopolítica e das políticas fiscal e monetária.

A Covid19 revelou as fragilidades do modelo chamado neoliberal dos EUA e do modelo chamado de bem-estar europeu. As deficiências do sistema social americano. As limitações do sistema de inovação do sistema europeu.

Esta é a síntese da antevisão do Consenso de Londres. A antevisão da necessidade da troca dos dogmas do “ou um ou outro” pela convergência do “um e/ou outro”.

Construir flexibilidade para enfrentar os desafios ampliados no Século XXI: mudanças climáticas; perda de biodiversidade; a pandemia da Covid19; as diversas desigualdades (não apenas econômicas); os efeitos perversos da tecnologia na política (populismo); a destruição criativa; a fragmentação econômica global (desglobalização); a polarização; as guerras; e o declínio da democracia liberal.

O Consenso de Londres antevê que, dados os novos desafios, o capitalismo não pode ser dinâmico se não for inclusivo. E não pode ser inovador se interesses de manutenção do “status quo” contenham a emergência de novos talentos advindos também da base da sociedade.

Para superar dicotomias, o Consenso de Londres aponta políticas públicas que podem impulsionar o capitalismo para mais inovação e para mais inclusão. Através da modernização do mercado de trabalho; da reforma do sistema de educação; e do estímulo à competição empresarial.

O mercado de trabalho moderno requer o estímulo à mobilidade da força de trabalho. Com flexibilidade para demitir e com seguro desemprego temporário. E com aceleração da contínua educação profissionalizante.

A competição requer a contenção dos monopólios e o estímulo à inovação contínua e entrada de novos “players” no mercado, via Startups e estímulos às empresas pequenas e médias: “espalhar” a multiplicação da lógica capitalista do empreendedorismo produtivo.

E a educação. Com reforma educacional inclusiva e inovadora (como na Finlândia em 1970). Ampliar as possibilidades para que os mais talentosos se tornem inovadores, desde a base da pirâmide social. Os autores do Consenso de Londres se referem a necessidade de “reduzir a perda de Einsteins” e incorporar talentos da base da pirâmide social. O mundo da inovação.

Na direção do horizonte de um novo capitalismo, o Consenso de Londres vai além do Consenso de Washington, que tinha/tem a essência prescritiva e monolítica da ênfase nos fatores econômicos. O Consenso de Londres amplia o foco e incorpora os fatores institucionais e sociais. A economia política.

Do famoso motto “é a economia, estúpido” para o novo motto em construção: “é a política, estúpido”. Da ênfase no lado da demanda agregada e da eficiência estática, para a ênfase no lado da oferta e da eficácia dinâmica: a geração do crescimento com foco em políticas de desenvolvimento produtivas.

Vem daí a noção de “produtivismo”, um dos pilares do Consenso de Londres, formulado por Dani Rodrik. Ele define o conceito como “disseminador de oportunidades econômicas produtivas em toda a economia e em segmentos da força de trabalho”.

Que se diferencia, segundo ele, do chamado neoliberalismo, porque confere ao governo/Estado e a sociedade civil papéis importantes para atingir os objetivos. Coloca menos crédito na capacidade do mercado “per se” e é cético em relação às grandes corporações.

Foca mais em investimentos produtivos e menos na financeirização dos lucros (mercado financeiro). Foca, também, no poder econômico multiplicador das cidades e comunidades locais, e menos na globalização.

Vai além do Estado do bem-estar keynesiano – focando em menos distribuição e benefícios sociais e gestão macroeconômica e mais em criar oportunidades econômicas através do foco do lado da OFERTA: criar projetos produtivos e gerar emprego e renda, enfatiza Rodrik.

Para além do enfoque keynesiano, novos desenhos de política industrial para o agronegócio, os serviços e a indústria propriamente dita. Produtivismo transversal. Requer condições institucionais. Ou seja, governos aptos para ter capacidade de gerar consenso político e capacidade de impulsionar as entregas produtivas.

Esta visão do Consenso de Londres para o capitalismo reflete e é refletida pela evolução do capitalismo oriental.

Também no capitalismo oriental – liderado pela China – formou-se uma necessária convergência entre inovação e inclusão. Com o aumento da classe média.

Na geopolítica do Império Ocidental e do Império Oriental – Estados Unidos e China – a resultante em processo de formação é a imbricação (dialética) do capitalismo liberal do Ocidente (Estados Unidos) com o capitalismo político da China.

Por um lado, a consolidação da plutocracia no capitalismo liberal na direção do capitalismo iliberal, com o avanço do trumpismo econômico. O efeito da liderança iliberal de Donald Trump cria uma agenda de impulso ao capitalismo político.

Por outro lado, a consolidação da plutocracia no capitalismo chinês. O poder da nomenclatura partidária no aparato de Estado, combinado com a descentralização da lógica do capitalismo de mercado pelas províncias/cidades do país.

Branko Milanovié, em seu “Capitalismo sem Rivais” conclui que o domínio do capitalismo como a única maneira de organizar a produção e a distribuição de riqueza parece absoluto. “Não há nenhum rival à vista”.

O chamado espírito capitalista penetrou profundamente na vida individual das pessoas, diz Milanovié. O espírito competitivo e aquisitivo inerente ao capitalismo.

Para ele, o ponto final dos dois sistemas, o capitalismo liberal e o capitalismo político, se torna semelhante: “a unificação e a persistência das elites”, com laços mais estreitos entre o poder econômico e o político.

Capitalismo sem rivais. Com perfil de novo capitalismo.

Agora na direção da superação dos dogmas, para ter flexibilidade e enfrentar a miríade de desafios recheados de volatilidade e incertezas, na evolução do mundo digital do Século XXI.

Com a lógica do fortalecimento e modernização dos complexos industriais militares. Em busca da geopolítica de dissuasão.

Antonio Carlos de Medeiro é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

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