Falta-nos uma palavrinha (por Miguel Esteves Cardoso)
Os Óscares são já em Março, vai haver pela primeira vez um Óscar para o casting
atualizado
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Os Óscares são já em Março, vai haver pela primeira vez um Óscar para o casting, e nós sem uma palavra portuguesa para dizer casting.
A última vez que se arranjou uma nova categoria para os Óscares foi em 2001, quando se decidiu que as longas-metragens de animação também deveriam ter direito a um.
Ora, o casting não só contribui imenso — muito mais do que se pensa — para a qualidade de um filme, como tem melhorado a olhos vistos nas últimas décadas, tanto nos filmes bons como nos maus. E nós fomos apanhados desprevenidos sem uma palavra nossa para casting!
Este ano, a minha tarefa de torcedor está muito facilitada porque vou torcer pelo relampagueante Marty Supreme, de Josh Safdie, em todas as categorias para que foi nomeado.
É daqueles filmes que está mesmo vivo, e que poderia servir — como só alguns outros grandes filmes — para explicar aos marcianos, ou aos nossos antepassados, o que é o cinema.
É um filme sobre a ambição e a ousadia, a fuga ao trabalho diário e à subserviência e, sobretudo, é sobre a lata, e sobre o poder libertador da negociação, da manipulação e da infinita flexibilidade perante os sarilhos que a vida nos arranja — e aqueles em que nos metemos sozinhos, sem precisar da ajuda da vida.
O casting — sempre muito forte com os irmãos Safdie — é de Jennifer Venditi, e é sublime. Não vou dizer nomes, mas prepare-se para ficar surpreendido.
E o casting do magnífico O Agente Secreto, de Gabriel Domingues, o único homem entre os casting directors nomeados para um Óscar? E o casting do divertidíssimo One Battle After Another, feito por Cassandra Kulukundis?
Não gostei de Hamnet, mas o casting de Nina Gold é desconcertante e admirável, enquanto a solidez clássica de Sinners deve muito ao casting luxuoso de Francine Maisler.
E a palavra para casting? Elencagem é feio. Fundição é literal. Que tal personificação? Ou só atribuição? Será preciso acrescentar “de papéis”? E distribuição dramática? Ou encarnação?
(Transcrito do PÚBLICO)


