Dois hemisférios em contraste (por Marcos Magalhães)
Lá no chamado Norte Global, os ânimos andam alterados. Os eleitores dos Estados Unidos colocaram no poder um projeto nacionalista
atualizado
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Milhares de jovens europeus e americanos vestiram a fantasia de repórteres no quente final de semana e inundaram as redes sociais com imagens do carnaval nas ruas do Rio e de Salvador. O contraste com o gélido Hemisfério Norte, onde se realizava a Conferência de Segurança de Munique, era bem mais que climático.
Os celulares dos turistas registraram e publicaram para uma audiência quase global cenas de um Brasil real, com seus contrastes e suas belezas. Mas, principalmente, de um país onde a alegria e o improviso podem mover um bloco logo nas primeiras horas da manhã.
Era como se as imagens de seus celulares dessem continuidade a um roteiro iniciado com as recentes premiações internacionais a dois filmes – Ainda estou aqui e O agente secreto – e a dois músicos – Caetano Veloso e Maria Bethânia.
Se o Brasil anda na moda e encanta até por uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno, não será por um ainda distante esplendor econômico, mas sim por oferecer a um público já meio cético um caminho alternativo para viver a vida.
Isso porque, lá no chamado Norte Global, os ânimos andam alterados. Os eleitores dos Estados Unidos colocaram no poder um projeto nacionalista, autoritário e cheio de mau humor.
A Europa, que já andava com os nervos à flor da pele com seus pífios resultados econômicos, altos índices de desemprego e aversão a uma percebida invasão cultural, vem sendo castigada por ondas de populismo conservador.
Como se isso fosse pouco, os dois lados do Atlântico Norte entraram em rota de colisão após a posse do presidente Donald Trump para seu segundo mandato. Ele deixou claro, desde o início, que os europeus deveriam cuidar mais de si mesmos.
Há um ano, o vice-presidente americano J.D. Vance chocou os aliados ocidentais ao dizer, na Conferência de Munique, que a principal ameaça à Europa vinha de dentro e ao criticar leis contra desinformação por, a seu ver, “silenciar a oposição”.
Este carnaval foi um pouco diferente. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, chegou com um discurso mais suave e conciliatório, aplaudido por metade do auditório. Mas lembrou que seu país vai buscar seus interesses sozinho se não encontrar receptividade no Velho Continente.
Foi, mais uma vez, a Conferência do “Ocidente contra o Ocidente” – título, aliás, de um dos eventos realizados durante a conferência. Segundo a moderadora do evento, Bronwen Maddox, diretora-executiva do think tank britânico Chatham House, a conferência capturou o “estado de desconforto no mundo”.
“Os países estão tentando se posicionar de maneira segura e lucrativa entre duas superpotências que vivem crescente conflito econômico, mas não uma guerra – pelo menos por enquanto”, escreveu Maddox.
Além do conflito de interesses entre os países ocidentais, a conferência demonstrou que Washington está cada vez mais interessada em conter o crescimento da China e assegurar o que vê como sobrevivência da cultura ocidental, com o auxílio de aliados como partidos da extrema direita europeia.
Na segunda-feira, enquanto as delegações voltavam para casa com a sensação de ver um mundo em rota de colisão, a mais de 10 mil quilômetros centenas de milhares de pessoas seguiam festejando o carnaval neste distante Hemisfério Sul.
Depois da quarta-feira de cinzas, será o momento de descansar um pouco e se recompor para um ano que promete ser longo e difícil. Um ano de eleições que definirão como o Brasil pretende se posicionar no mundo neste início de século 21.
Assim como outros atores emergentes do Sul Global, o país não tem o peso de uma superpotência militar. Nem terá voz ativa em uma conferência como a de Munique. Mas dispõe de ativos imateriais, como seu estilo de vida, a persistente defesa do meio ambiente e o esforço para combater a pobreza.
A agenda global tem sido sequestrada, nos últimos anos, por temas que envolvem grandes disputas de poder no Hemisfério Norte, como a guerra na Ucrânia, o nacionalismo econômico e a ameaça dos Estados Unidos de anexar a Groenlândia e até mesmo seu vizinho Canadá. Além de sua crescente competição com a China.
Ao Brasil, como a outros países do Hemisfério Sul, interessa mudar essa agenda, para reincluir na pauta temas que interessam a mais da metade da humanidade, como o combate à mudança climática, o desenvolvimento sustentável e o multilateralismo. Ou seja, menos conflito e mais cooperação.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.


