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Do fim de Khamenei à mudança de regime (por Jorge Almeida Fernandes)

Ao regime, basta-lhe sobreviver. E a sobrevivência pode passar pela militarização do poder através dos Guardas da Revolução

atualizado

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Carla Sena/ Arte Metrópoles
Montagem com as imagens de Donald Trump e do líder supremo do Irã, Ali Khamenei -- Metrópoles
1 de 1 Montagem com as imagens de Donald Trump e do líder supremo do Irã, Ali Khamenei -- Metrópoles - Foto: Carla Sena/ Arte Metrópoles

A morte do Guia Supremo do Irã, Ali Khamenei, abre um vazio no regime iraniano, na altura em que enfrenta o maior “desafio existencial” em quase meio século de poder. Não sabemos ainda como se processará a sucessão. Independentemente de quem assuma o poder, o que está em jogo é a sobrevivência.

O regime não pode e não precisa de vencer: basta-lhe sobreviver. E a sobrevivência pode, em última análise, passar por uma militarização do poder através dos Guardas da Revolução, reduzindo a influência teocrática e acentuando o nacionalismo.

Os Estados Unidos e Israel decidiram lançar uma ofensiva com objetivos muito mais largos do que a de junho de 2025, que foi uma “operação limitada”, visando essencialmente o programa nuclear. Desta vez, Donald Trump e Benjamin Netanyahu visam provocar o desmoronamento do regime.

E, para lá deste objetivo estratégico, ambos esperam capitalizar politicamente a operação: Trump para melhorar as suas hipóteses nas próximas eleições intercalares de novembro, enquanto Netanyahu vê na exploração desta guerra uma oportunidade única para que o Likud [seu partido] sobreviva nas legislativas de outubro.

Esta é patentemente uma “guerra de eleição” e não uma “guerra de necessidade”. O Irã não constituía nenhuma ameaça para os Estados Unidos nem, desde 2025, para Israel. A razão da guerra foi a oportunidade para explorar a fraqueza do adversário.

Para os estrategistas israelitas, as maciças manifestações de janeiro contra o regime de Teerã e a feroz repressão que se seguiu abriram uma “nova era” que tornaria “realista” um cenário de mudança de regime.

Escreveu Raz Zimmt, do Instituto Israelita de Estudos de Segurança Nacional: “Mas, antes disso, é preciso minar as fundações do regime, para que lhe seja difícil preservar a coesão interna, a reconstrução das suas capacidades e, tanto quanto possível, funcionar.”

Trump encarregou-se de inventar uma solução “genial” para prevenir o envio de soldados americanos para o terreno e evitar as desastrosas mudanças de regime no Afeganistão e no Iraque. Logo no sábado repetiu o apelo à sublevação dos iranianos contra o regime teocrático: “Quando nós tivermos acabado, tomai o controle do vosso governo. Cabe-vos fazê-lo. Será provavelmente a vossa única oportunidade em gerações.”

E deu um passo maior, dirigindo-se diretamente aos Guardas da Revolução, aos militares e a “todas as forças de polícia” para que deponham as armas de modo a beneficiarem de “imunidade total”.

Trump ainda não foi capaz de definir o objetivo da guerra nem as condições para que esta acabe. O novo modelo de “mudança de regime”, via bombardeamentos, é largamente contestado. “A esperança seria a decapitação da liderança iraniana e a destruição da capacidade militar do regime, que levariam a uma espécie de transição orgânica e espontânea para um novo sistema político, sem posterior intervenção dos EUA”, explica no Financial Times o analista Gideon Rachman. “Mas não há razões para acreditar que isto funcione.”

O iraniano-americano Ali Vaez, director do Iran Project no International Crisis Group, fez idêntica crítica no domingo, na Foreign Affairs. “O caminho para um levantamento popular está longe de ser claro. As bombas podem degradar as infraestruturas. Podem enfraquecer as capacidades e eliminar líderes. Mas não produzem alternativas políticas organizadas.”

“A população iraniana está desarmada e fragmentada. O regime, mesmo enfraquecido, conserva as instituições coercivas – os Guardas da Revolução, os serviços secretos, as forças internas de segurança – que foram precisamente criadas para momentos como este.”

A morte do Guia Supremo era uma condição necessária para os estrategistas israelitas na medida em que tenderia a suscitar divisões na elite iraniana, perturbaria o processo de sucessão e significaria uma pesada derrota simbólica.

Resta saber que tipo de retaliações irá Teerã desencadear. O risco de escalada é grande. Por um lado, é possível a tentação de demonstrar aos EUA a sua capacidade de causar danos e “incendiar” a região, de modo a convencer Trump a não prosseguir por muito tempo os bombardeamentos. Por outro lado, o Irã sabe que não pode voltar a cometer o erro em que caiu após o ataque do Hamas a Israel no 7 de outubro de 2023. Ao sobrestimar as suas capacidades e subestimar as dos adversários, abriu o caminho a derrotas humilhantes.

É de mau gosto especular sobre a reorganização do poder no Irão. Podemos avançar coisas genéricas, como um previsível aumento da influência dos Guardas da Revolução, desde há muito um proeminente actor político e a força mais estruturado do regime, talvez à custa de uma relativa marginalização da teocracia. A grande questão do regime é descobrir o melhor modo de sobreviver.

Têm sido igualmente traçados cenários extremos, como o do colapso do Estado ou mesmo de uma guerra civil. Podemos também lembrar que a sua população é a mais ocidentalizada da região. O Irã foi a primeira democracia parlamentar da Ásia. Destruída pela Inglaterra e pelos Estados Unidos em 1953 para dar lugar à ditadura do Xá, foi depois impedida de renascer pela revolução islâmica do ayatollah Khomeini (1979).

Numa entrevista à Foreign Affairs, o americano Karim Sadjadpour, um dos grandes especialistas do Irã, lembra o paradoxo das revoluções: “Para serem viáveis têm de atrair uma massa crítica de povo. Mas uma massa de povo não se junta à revolução a menos que pense que ela é viável.” E lembra que “três quartos das transições do autoritarismo conduzem a novas formas de autoritarismo”.

Mesmo assim, Sadjadpour acredita que a sociedade iraniana “está madura para a transição para uma democracia representativa secular”. Só que a guerra não acabou e não conhecemos o dia de amanhã.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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