Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho

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Rafaela Felicciano/Metrópoles
Imagem de escultura representando a Justiça -- Metrópoles
1 de 1 Imagem de escultura representando a Justiça -- Metrópoles - Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Fala sobre outro assunto       (Diário de Notícias, 23 de novembro de 1947)
Avisarei, de início, que se trata realmente de uma fala sobre outro assunto. Não aproveitarei a ocasião para esclarecer certos detalhes com o jovem escritor que chamou de “cães de guarda da reação” os que lutaram para que o II Congresso Brasileiro de Escritores fosse realmente uma expressão do pensamento democrático da classe inteira e não um instrumento de agitação partidária. Chamou a todos, não excluindo os redatores da Declaração de Princípios, que entretanto também assinou; e nominalmente citou aquele Carlos Drummond de Andrade que, pela pureza de sua vida e de seu pensamento, pela fidelidade de seu destino de poeta, é um exemplo neste país.

Também não escreverei de novo sobre árvores, embora o prefeito tenha ferido as árvores do largo da Carioca e a velha amendoeira do Morro da Viúva; de noite, as derrubou como quem furta uma criança. É de homens que vos falarei. E de que homens! Destes admiráveis juízes de Alagoas que soltam deputados da cadeia e soltam jornais da polícia.

[Já contei que quando nasci um habeas corpus obtido por meu pai resultou no episódio do juiz enganchado. Ao contrário do caso do Piauí, em que a maioria concedeu a medida,] em Alagoas todos votaram a favor dos presos e do jornal. E o Tribunal não foi dissolvido logo. Isso depõe, ao mesmo tempo, em favor da coragem do Tribunal e contra a imprevisão do Poder Executivo: teve de deixar para ser desagravado depois, se bem que o desagravo se prolongasse noite adentro.

Aqui discordo profundamente dos meus amigos apátridas dos jornais do Rio que ousaram insinuar não ter toda a razão a Gazeta de Alagoas, quando escreveu estas palavras enternecedoras: “Nada temos a temer. Silvestre Péricles está com Alagoas, com o Brasil, com a humanidade e com o infinito e a eternidade de Deus.” Ora, é evidente que Silvestre Péricles está com tudo isso, mesmo porque todas essas categorias humanas e divinas estão com ele. Alagoas não lhe dá roupa para vestir, comida para comer, palácio para pregar retratos de família, votos para eleger os irmãos? O Brasil não escuta há quase vinte anos a conversa de seu mano Pedro Aurélio, sem que nunca lhe tenha gritado, como costuma fazer o próprio Pedro Aurélio, nas entrevistas, em que tanto se diverte à custa dos repórteres, ao papagaio, que é o seu bichinho de estimação, e a que deu seu nome: “Cala a boca, general Góis!”?  Da humanidade não tem Silvestre Péricles o gesto e a forma? E os poderes infinitos de Deus não lhe mantêm a vida? Não lhe deu o senhor a noite para que apedreje casas? Pedras para que nas casas as atire? Palavras para que chame de cães os seus desafetos? A Pátria, para que dela exclua os seus inimigos? E os jornais governistas — ah, sobretudo os jornais governistas — para que publique seus sonetos?

Também me parece digna de melhor exame a decisão do Tribunal, principalmente sob um aspecto ainda não debatido. Quem nos assegura que os comunistas e udenistas pertençam, em Alagoas, como acontece nos outros lugares, à espécie humana? Terão eles cara, braços, pernas, cabeça, troncos e membros? Terão alma? Dúvida semelhante se levantou no século XVI sobre nossos índios, e careceu que um Papa a esclarecesse a favor deles. Não recorramos, entretanto, à Igreja, porque se os índios, que comiam gente, ela declarou humanos, que não dirá dos udeno-comunistas de Alagoas, que apenas querem usar seus direitos na cidade temporal? Depois, convenhamos, que os católicos estão muito moles neste negócio de combate aos comunistas. Pois se muitos deles distinguem entre combate aos comunistas e combate ao comunismo, e se dizem partidários deste e discordantes daquele, como se uma coisa não estivesse ligada à outra! Que não pensará Silvestre Péricles dos graves e profundos leadings do nosso mestre Tristão de Athayde?  Com que horror não leria o acadêmico Silvestre Péricles estas palavras de um seu colega de Academia (se bem que da Academia Francesa), François Mauriac, se dirigindo aos cristãos e falando de Deus aos cristãos: “Qu’ils le cherchent d’abord e qu’ils le trouvent dans ceux qui souffrent persécution pour la justice, chrétiens ou païens, communistes ou juifs, car de ceux-ci, la ressemblance avec le Christ est en raison directe des outrages qu’ils endurent: le crachat sur la face authentifie cette ressemblance.”

 

Que calafrio não percorreria Silvestre Péricles se soubesse que a esse acadêmico (da Academia Francesa, felizmente, para honra da Academia Alagoana) ousou um padre dominicano, o Père Maydieu, acompanhar a uma reunião do Comitê de Escritores da Resistência, na França ocupada, em casa de uma jovem comunista, respondendo espantando ao escritor que lhe ponderava essa circunstância: “Qu’est-ce que ça peut faire?” Como poderá Silvestre Péricles compreender a existência de católicos que não têm medo dos comunistas e nem desejam que eles sejam perseguidos, porque bem sabe que, aconteça o que acontecer, será de Nosso Senhor Jesus Cristo a última palavra? Não queremos senão liberdade para falar a verdade.  Como dizia o conde Joseph de Maistre: “On ne doit aux papes que la vérité, et ils n’ont besoin que d’elle.”

 

Esta digressão me levou longe do Tribunal de Alagoas. E eu me penitencio disso. Devemos falar muito desses homens, pensar sempre neles, nos seus colegas dos outros tribunais, nos que se sentam no mais alto deles, nos velhinhos, como um amigo meu os costuma chamar. Sim, da coragem do Tribunal de Alagoas nunca se falará o quanto baste. O general Góis Monteiro costuma dizer que os políticos são loucos, que estão vendo o hospício através do nevoeiro, que isto é um manicômio político e para isso lá terá ele as suas razões. Os juízes de Alagoas parecem que não pensam do mesmo modo. Agiram serenamente, sem cuidar talvez fosse verdadeira a hipótese, imagem ou alegoria do general Góis, e que talvez houvesse por ali um doido solto, com uma navalha na mão, e com doidos nem dadas e nem tomadas. E o certo é que agiram bem, serenamente, cumprindo o dever. Que Deus os conserve com vida, a esses homens fortes, que souberam isolar os que têm fome e sede de justiça. Que Deus os livre de picada de cobra — e de mordida de cão, principalmente de cachorro doido.

Quero concluir declarando que não compreendo o prazer que tem essa gente — moradores do Méier que acorrem a comícios na Esplanada, deputados que visitam cadeias na nova Grécia do novo Péricles, fotógrafos que batem chapas de tumultos em Porto Alegre — de atirar na polícia. Vai o tiro, descendendo vagarosamente a rua, desarmado e sozinho; ou pausadamente se vai deleitando com a oratória nacional; ou sutilmente se queda vigiando presos, ou temerariamente interpela linotipistas que saíram para tomar café de macacão. E de repente deputados atiram nele, granadas de mão são jogadas, jornais se erguem como ásperas montanhas de papel no seu caminho, gordos e inteligentes secretários de jornal mangam dele, o insultam e o desafiam. E eis que me chega à garganta um apelo que é um grito: “Não atirem na polícia! Deputados, sobretudo, deem o exemplo: não atirem na polícia! E vós, jornais, deixai livre o caminho da polícia! A polícia cumprimenta o povo e pede passagem; abram alas para a polícia que a polícia quer passar. Via livre e pé na tábua, que nem em todo o lugar há juízes como em Alagoas…”

 

Odylo Costa, filho

 

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho. Nem todas datam de tempos de censura, mas… Esta em que meu Pai não fala de outro assunto, mas do mesmo habeas corpuscuja concessão no nosso tempo se tornou — segundo sentença exarada pelo delegado da CPI — crime de corrupção. Naquela ocasião um dos Góis Monteiro se indignara com a pérfida aliança entre udenistas e comunistas. O Père Augustin Maydieu foi o diretor da revista La Vie Intellectuelle e um dos líderes da resistência francesa durante a Segunda Guerra. Pedro Costa

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