
Cuba à beira do colapso energético (por Mariana Caminha)
Cuba tem grande potencial para energia solar, eólica e até biomassa. Mas a realidade é dura: faltam investimento e infraestrutura

Cuba não é para qualquer um, mas para quem gosta de salsa, charuto e História, uma visita vale por uma vida inteira. Essa frase resume boa parte das conversas que tive sobre a ilha antes de finalmente conhecê-la em 2025, depois de anos sonhando com esse momento.
Minha paixão pela salsa – o ritmo que acompanha minha vida com Alexandre, com quem estou há 24 anos – fez com que uma viagem a Cuba fizesse todo sentido. Depois de um belo show no Floridita, bar preferido de Hemingway em Havana, voltávamos para o hotel em um tuc tuc pedalado por um senhor de pernas fortes, quando algo chamou nossa atenção: a escuridão das ruas e a fragilidade dos prédios.
Não era apenas noite. Era falta de luz, falta de combustível.
A crise energética que hoje atinge Cuba com força máxima já aparecia em 2025, muito antes de se tornar manchete no mundo. O país vem sofrendo apagões rotineiros e racionamentos prolongados, em parte por causa de falhas no sistema elétrico antiquado e pela escassez de combustível importado.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSem energia não há eletricidade estável, transporte adequado, indústria funcionando ou turismo fluindo regularmente. Tudo isso depende de combustível em uma ilha que não produz o suficiente para atender às suas necessidades.
A histórica parceria com a Venezuela, que consistia em trocar combustível por médicos e assistência técnica, praticamente desmoronou depois que Caracas reduziu drasticamente seus envios. O país agora sente os efeitos de um embargo americano que restringe ainda mais a importação de petróleo e dificulta o acesso a linhas de crédito e peças para manutenção do sistema elétrico.
O resultado é visível nas ruas: lixo acumulado porque não há combustível nem coletoras funcionando; empresas fechando portões por falta de energia; transportes públicos que operam de forma incerta; e uma rotina de desligamento programado que tem alterado profundamente a vida de milhões de pessoas. Vimos tudo isso acontecer quando estivemos lá. Agora, trata-se do novo normal.
Na ilha, eu ouvi pouco sobre “transição energética” nas rodas de conversa. Parecia um termo distante, quase abstrato. Mas num contexto em que a dependência de combustíveis fósseis ameaça paralisar completamente o país, fica claro que a energia renovável já não é apenas uma opção ambiental, mas uma necessidade urgente.
Cuba tem grande potencial para energia solar, eólica e até biomassa, fruto de suas condições naturais. Recentemente, o governo anunciou metas ambiciosas para aumentar a participação de renováveis na matriz energética e firmou parcerias internacionais para acelerar esses projetos. Mas a realidade é dura: falta investimento, infraestrutura e escala técnica para transformar esse potencial em algo que realmente alivie os apagões e ofereça eletricidade confiável.
E, ainda assim, Cuba segue com sua música, seus passos de salsa e seus sorrisos. Há uma capacidade impressionante de adaptação no cotidiano: pessoas reorganizam rotinas, ajustam horários, aprendem a viver com a incerteza da luz que pode faltar a qualquer momento. Como na salsa, o improviso é necessidade – essa habilidade de se ajustar ao imprevisto que sustenta a vida nesta ilha encantadora.

